quinta-feira, 13 de junho de 2013

Mergulhando fundo em uma ideia!



Nossa saída do pensionato não aconteceu de forma totalmente tranquila. Dentre outras coisas, saímos também porque muito do acordado quando fomos pra lá não estava mais sendo cumprido pela proprietária (aquele pensionato merece mais algumas postagens, rs. Depois vou pedir autorização a alguns heróis que alí conhecemos naqueles dias para contar mais algumas histórias de lá). Como precisávamos voltar a fortalecer a equipe diante das baixas recém-ocorridas, lembrei-me que precisava também me vingar da velha do pensionato. Encontrei a fórmula certa para juntar as duas coisas.

Em postagens anteriores, falei de Rodrigo, um cearense que cursava educação física na UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) e morava no pensionato. Quando fizemos amizade com ele, Rodrigo me falou da insatisfação com a moradia. De tudo que vinha sendo descumprido e que só não saía por que estava difícil arrumar um lugar compatível com a situação financeira atual. Ele continuava lá mais pelo atrativo do preço “de estudante”.

Em uma visita despretensiosa ao meu amigo em um fim de semana, fiz algumas contas com ele referente aos custos mensais para morar naquelas condições. Logo comecei a puxa-lo pra meu lado. Dei a ideia de que ele podia morar mais perto da faculdade. Falei de uma pequena cesta básica que recebíamos na empresa e poderíamos dividir sem problemas. Que eu estava já sendo contratado (e rezando pra acertar essa conversa que eu contava sempre que precisava animar alguém – rs) e dava pra gente se virar. Estava resolvido, Rodrigo ia deixar o pensionato e estava indo reforçar nosso time. Não podia ter aquisição melhor. Um cara batalhador, cheio de sonhos assim com nós, que chegou ali com as mesmas dificuldades e que agora era mais um a acreditar em meu projeto que sempre tinha como tema: Vai dar tudo certo.

Paralelo a isso, na empresa eu cobrava todos os dias a migração de estagiário para efetivo. Até que um dia o gerente me chamou na sala e me veio com a seguinte conversa: É, tem você e Márcio esperando contratação. Eu consegui apenas uma vaga. Para evitar que tenhamos problemas, acho melhor aguardar surgir outra vaga assim posso contratar os dois. Imediatamente eu entendi a jogada. Ele precisava muito dos dois e ficou pensando em contratar apenas um e o outro ficar desmotivado para continuar. Êpa, contrate um, seja ele qual for. E quer saber do mais, contrate Márcio que é mais agoniado. De todo jeito vai está melhorando a vida dos dois mesmo. O que não significa que eu vou diminuir minhas cobranças, amanhã bato em sua porta novamente para cobrar melhorias para mim. Bom, depois de muita conversa, minha ideia foi aceita e o gerente pediu que Márcio trouxesse a documentação no dia seguinte para o tão sonhado processo de contratação para o quadro efetivo.

Fazendo uma avaliação, estávamos com um saldo bem positivo. Roubei um hóspede do pensionado só pra me vingar, de tabela ainda reforcei a equipe com um cara gente fina. E pra fechar com chave de ouro, conseguimos uma contratação. Era hora de procurar o dono do prédio para pagar a diferença que prometi pra ele assim que a situação financeira melhorasse. O cara foi muito simpático conosco e não quis nada a mais pelo aluguel. Mas mantendo o foco ainda na redução de custo, encontrei um apartamento maior e por um preço menor. Era hora de sair da Praça Felix Araújo. Enquanto Rodrigo estava arrumando as coisas para se mudar, também arrumamos as nossas e levantamos acampamento. Destino a Rua Epitácio Pessoa onde recebemos o novo hóspede. Ô povo pra se mudar, ainda bem que não tinha nada além da mala, a mochila, nosso fogão de duas bocas e o gravador de um deck só. Bem vindo a casa Rodrigo, vida que segue. Você agora faz parte dos próximos capítulos dessa história.
Francisco Trajano

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Eu, Ceará e nós mesmos!



Ceará é como é conhecido Márcio Júnior. Com a saída dos outros estagiários, ele foi o último sobrevivente a me acompanhar na insistência de permanecer em Campina Grande e buscar um espaço para tal. Voltando aquela reunião mais que emergencial que começou na postagem anterior, confesso que eu estava apreensivo com tudo, só não podia demonstrar isso de forma nenhuma, se não, eu podia perder o último guerreiro. Tinha mais era que fazer que ele acreditasse que era possível e não me obrigasse a acreditar que era hora de parar de forma pior, na prática. Começamos com o seguinte diálogo:

_ Trajano, você ainda vai querer continuar com essa história de morar aqui? Só eu e você agora? Achando que tudo vai dar certo um dia? E quanto tempo vai demorar pra esse dia chegar?

_ Esse dia vai chegar e eu vou está aqui esperando e com você. Em quanto tempo? Num sei, quando chegar medimos. A palavra desistir não pertence ao meu vocabulário meu amigo, tem que haver uma saída, mas voltar pra casa agora eu não vou mesmo. Meu plano é lutar e mudar isso. Qual o seu? Voltar pra o sertão como fracassado e passar ajudar no roçado novamente? Levante a cabeça, vamos conseguir uma vaga depois do estágio, se não conseguir lá, vamos procurar em outra empresa e começar tudo de novo.

_ Mas não depende só de você querer ou não. Seu otimismo não vai pagar as contas no final do mês não. O aluguel vai já vencer de novo e só isso leva metade de nossa renda. A gente precisa comer também você lembra disso? Se já tava difícil e agora?

_ Sei que realmente não tá fácil. No entanto, voltar pra o sertão não pode ser a única alternativa. Eu preciso comer sim, nós precisamos. Mais preciso fazer isso aqui em Campina e vou fazer. Quanto ao meu otimismo, é ele que vai me fazer achar uma saída. Já estou pensando num plano aqui para permanecermos.

_ Você e seus planos. O que não posso é dizer a minha família no interior que tô aqui na pior. Que estudei pra vir passar fome fora de casa. Meu Deus se minha família sonha a situação que estamos. Num quero nem imaginar.

_ Espere, sem exageros. Fome ninguém tá passando, ainda não né? Rsrs. Vamos reverter o quadro. Quando a família saber, a minha também não vai nem pode saber, pelo menos por enquanto. A não ser num futuro bem distante quando tudo estiver resolvido. Afinal, acredito que tudo ficará bem e se tudo fosse certinho, que história teríamos pra contar? (Por sinal a alimentação desse blog só é farta porque passamos por isso viu Márcio?).

A primeira providência no dia seguinte foi explicar ao gerente da empresa a situação, a vontade de continuar e pedir que ele melhorasse financeiramente alguma coisa para um dos dois, afinal estávamos juntos nessa. E ainda avisei pra ele que eu cobraria isso todos os dias. Márcio ficava desconfiado em apostar no meu otimismo, mas de contrapartida, não fazia nada além de esperar que esse mesmo otimismo desse resultado pra nós dois. Tínhamos histórias parecidas, por isso eu acreditava que ele não desistira fácil como falou e me acompanharia sim até onde eu fosse.

Outra providência foi procurar o dono do prédio quando voltei da empresa a noite e dizer pra ele: Sr. Nossa permanência em Campina Grande na busca de um sonho de trabalhar e estudar está dependendo de você. Preciso que baixe o valor do aluguel por dois meses, é o tempo que lhe peço. E depois posso repor a diferença quando a empresa cumprir a promessa de efetivar-nos em no máximo 40 dias (claro que isso não era verdade, a empresa não prometeu nada, eu estava apostando todas a fichas, valia tudo). Bom, o proprietário ficou sensibilizado com minha história e concedeu um desconto de 30% no aluguel para o período que pedi. E se tinha que botar em prática o ditado de “matar um leão por dia”, o do dia eu já tinha conseguido. Márcio não acreditou quando contei o que consegui. Mais uma vitória. E vamos pra frente que a vida não para.

Mas ainda precisávamos reforçar esse time o quanto antes. E Como fazer isso? Eu já tinha uma ideia. Mais uma ideia, lá vem ele de novo! Calma Márcio, daqui a pouco eu te digo como fazer isso...

Francisco Trajano

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sonho em grupo sendo desfeito


O estagio transcorria, mais nada de efetivação na empresa. Quando estava próximo ao final do período de seis meses do contrato inicial de estágio, só se falava em renovar o estágio. Por problemas pessoais, Juliane anuncia sua saída da casa. A equipe começa a ser desfeita. Agora éramos apenas quatro para dividir todas as despesas e sonhos. A oportunidade de efetivação no mercado de trabalho estava difícil e agora a espera começa ficar mais dolorosa.
Após uma despedida simples e podemos dizer que triste, afinal, além de está perdendo uma colega de estágio, cada um viu seus planos ameaçados pela redução do grupo. Começamos a pensar em como manter o resto da equipe unida. Mas agora não era hora de desanimar. Chegando à rodoviária, com desculpas e abraços vimos Juliane embarcar de volta para Cajazeiras. A caminho de casa, já marcamos uma reunião na mesma noite, para discutir novos planos e reorganizar os dias futuros.
Pensando pelo lado bom, o apartamento só tinha dois quartos e um deles era ocupado por Juliane, enquanto sobrava um para os quatro homens. A divisão ficou melhor agora. Já a divisão dos custos mensais... Não sei nem como, mas apertamos um pouco o orçamento e passamos para a ponta do lápis todo e qualquer gasto da semana.
Quando pensamos que tudo estava mais calmo, eis que surgi mais uma novidade para ameaçar o futuro do grupo. Com a divulgação do resultado do vestibular da UFCG, Bruno Carolino foi aprovado para o primeiro período do curso de Letras (detalhe, para o Campus de Cajazeiras). Mais um companheiro começa a fazer as malas para voltar ao sertão na semana seguinte. Não podia ser diferente, com a saída de Bruno para a rodoviária, outra reunião foi marcada as pressas, dessa vez com uma pauta adicional. Além de reduzir os custos, tínhamos que cobrar da empresa o quanto antes a efetivação como técnico para tentar melhorar os proventos financeiros mensais.
Partimos os três com o mesmo pensamento para a empresa, cobrar melhorias. Com algumas especulações feitas a título de salário e perspectivas de melhorias, Elivaldino cobrou mudanças rápidas e de uma forma mais enérgica numa hora não muito boa no setor que estava estagiando. Pelo fato de não obter sucesso nas cobranças e ainda ser tratado de uma forma que considerou humilhante, ele resolveu colocar a CTPS em cima da mesa do seu superior direto e disse que não ficava mais nenhum dia na empresa. Elivaldino partiu no dia seguinte para tentar a sorte na capital João Pessoa. Deixando o fardamento para que eu entregasse tamanha foi à decepção perante o tratamento recebido.
Vida que segue. Se a situação já estava crítica, imaginem agora que o grupo se resumia a mim e Márcio Junior? Ele tinha os mesmo motivos que eu para continuar naquela luta, restava saber se tinha a mesma coragem. E se também sabia fazer mágicas para manter aluguel, água, luz, feira e demais gastos como os cinco faziam, só que agora eram só dois. Tinha que haver uma saída, já que voltar pra casa eu não contava como saída.
Agora a reunião apenas com duas cadeiras ocupadas era realmente mais que emergencial. Dava para insistir na ideia de continuar? Como? A conversa de menor plateia ia começar. Os dois, ainda estagiários, botamos a palavra futuro na mesa... E agora?



Francisco Trajano

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Mais desafios


Depois da “noitada” na boate Morron Café, quando conseguimos reunir todo mundo novamente no sábado pela manhã, bem vindos a realidade! Tínhamos que sair para comprar a mobília. Cada um com seu colchonete e os quartos já estavam ok. A cozinha só tinha o nome. Na sala, apenas nosso som (aquele gravador de um deck) e nossa coleção de fita cassete, uma de Raul Seixas, uma de sertanejo e outra de forró. 
E lá estávamos nós nas compras. Nossa primeira aquisição foi um fogão de 2 bocas e um botijão de gás. Isso depois de pechinchar muito na Rua João Pessoa. Como as coisas eram muito caras, deixamos as panelas para comprar no dia seguinte lá na famosíssima Feira da Prata. Sem panelas, sem almoço no sábado. Já meio que azuis de fome, descobrimos perto da nossa nova moradia, um trailer que vendia um sanduíche chamado Nordestão. Conhecido pelo seu tamanho, uma das propagandas era que, ninguém conseguia comer um desse sozinho. Acho que quando disseram isso, não contavam com nossa visita lá.
E no domingo cedinho, seguem os “heróis do estágio” para a Feira da Prata. Olhamos todo o movimento da feira. Tomamos caldo de cana e comemos aquele pastel com um sabor que só se acha na feira mesmo. Descobri que na Prata se achava de tudo, desde de celular a parafuso de cabo de serrote. Numa promoção, compramos as panelas, conchas e a cuscuzeira no mesmo lugar. Aproveitei para levar um feijão verde, assim seria mais fácil e rápido para cozinhar. Feira feita, voltamos ao apartamento para preparar o primeiro almoço pós mudança. E assim, tivemos o que só não chamamos de mesa farta, porque na verdade “mesa” não havia. Mas tinha feijão, arroz e carne assada. E alí, no chão da sala mesmo, almoçamos conversando e nos divertindo da própria situação.
Agora era dormir um pouco, e lavar roupa. Por que a segunda-feira estava já batendo a nossa porta e tínhamos que encarar as dúvidas e incertezas de um estágio. Caminhávamos já para o quinto mês, e nenhuma promessa concreta de efetivação para nenhum de nós. O medo maior era que algum deixasse o barco, aí automaticamente as despesas aumentariam para os que ficassem. Tentei encorajar sempre a todos até para minha própria sobrevivência em Campina Grande. Para minha falta de sorte, o que eu mais temia aconteceu... A equipe começou a ser desfeita...
E agora? Como permanecer com menos de algo que já era pouco? Quem deixaria a casa? Quem sobreviveria comigo? Já que desistir era uma palavra que eu rasguei e joguei fora quando saí do sertão para Campina.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A coisa ficou preta na Marrom!




Depois do insucesso no aluguel da casa (da postagem anterior) e passados mais alguns dias no pensionato, as coisas começaram a ficar um pouco diferente do contratado e chegamos a conclusão de que tínhamos que sair dali o quanto antes.

Com o auxílio de outro sertanejo (José Pires de Araújo) que estava a mais tempo na cidade, depois de alguns dias de busca, consegui alugar um apartamento na praça Felix Araújo. Em uma sexta-feira, quitamos a fatura com a proprietária e nos despedimos do pensionato levando conosco toda nossa mobília. Era tanta coisa que foi uma única viagem em um automóvel Gol de um amigo da empresa que nos fez essa gentileza. Além das malas, resumia-se a um garrafão de água mineral, um ventilador, dois colchonetes e um gravador de um deck com algumas fitas cassete.

Como inauguração da nova moradia, José Pires nos fez um convite: Tem um lugar aqui muito bom para curtir na sexta a noite. Já comecei a fazer julgamento olhando pra Elivaldino que já apresentava um pouco de reprovação apenas com os olhos. Após o amigo descrever as “maravilhas” do local, Bruno e Juliane se animaram. Márcio, se era pra sair na noite e tomar alguma coisa, tá dentro sem pestanejar. Eu e Elivaldino não éramos do contra, mas sim da cautela. E tivemos a mesma opinião: Isso num deve ser lugar de estagiário rs.

De tanto Pires (assim o chamávamos) insistir, concordamos meio que desconfiados e marcamos na casa dele a noite para irmos juntos a Boate Marrom Café, que ficava na cobertura de um prédio no centro da cidade. Pires falou que não havia lugar melhor pra ir. Que era muito animado lá e que tinha mulher demais. Bom, chegando ao famoso local, foi cobrada ainda embaixo a taxa de cinco reais antes de pegar o elevador. Entreolhamo-nos vendo um quarto do nosso dinheiro da noitada indo embora antes de entrar. Assim seguimos ansiosos e para cima. Quando entramos no local, além do garçom  tinha umas quatro pessoas. Pense numa animação. Ao ser interrogado, Pires disse que chegamos cedo e era assim mesmo, mais tarde ia ficar cheio, assim falou nosso guia de festa.

Ficamos mesmo foi observando as luzes da cidade. A festa estava tão animada que tiramos uma soneca ali mesmo no sofá que ficava próximo as janelas de vidro. Na primeira visita a uma boate, dormimos em pleno salão de festa. Depois de um bom cochilo, voltei a dar uma olhada no salão e vi que o movimento pouco tinha mudado. Sem muitas esperanças chamei Elivaldino para dar uma volta e beber alguma coisa. Não vimos a fartura de mulher que foi informada. Pedimos uma dose de uma bebida que veio em uma taça minúscula e com uma cereja dentro que se muito tivesse seria 50ml. Pagava tudo na saída, mas por curiosidade, perguntamos o preço da dose. Mais um susto. Somada a bebida minha e a dele, era quase o valor de um litro. E quanto ao movimento, chegaram mais algumas pessoas, na maioria casais já formados e preconceitos a parte, as pessoas que subiam sozinha não tinham aparência muito hétero e não eram a praia da gente. Nos vimos em um ambiente esquisito, com pessoas esquisitas e com os preços mais caros da cidade.

É, estava resolvido. Íamos embora. Os demais estavam lá, fingindo ou não, achando tudo ótimo e dançando uma música agitada e agora com pouca luz daquele globo giratório e colorido. Podiam até nos chamar de matuto, no entanto, eu e Elivaldino resolvemos sair daquele lugar. Eu não gostava nem dos forrós do sertão, agora alí numa boate... Ah invenção! Rs... Não, vamos embora mesmo e pronto. Descemos a rua Maciel Pinheiro mais de meia noite a procura de um moto taxi, quando conseguimos apenas um e tivemos que dividir. E assim chegamos em casa e prometemos não mais seguir nosso guia de festa.

No dia seguinte, estávamos nós e nosso garrafão de água mineral na cozinha vazia, para começar a nova etapa, agora num apartamento. Foi o jeito botar a fita cassete de Raul Seixas e rir um pouco da noite anterior.


Francisco Trajano

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Estagiários e as referências do além!



Depois de três meses no pensionato, já convivíamos com certo desconforto por quebra de alguns acordos por parte da proprietária. Começamos a procurar outro lugar para morar.

                Um fim de tarde quando voltávamos do trabalho, observamos na mesma rua do pensionato uma casa com uma placa de “Aluga-se”. Era uma casa grande com fachada no estilo barroco e com várias janelas na frente. A imagem não era das mais amigáveis, parecia que não morava gente ali a muito tempo. Uma entrada na lateral que servia de garagem onde um senhor fazia limpeza no momento. Pedimos para olhar a casa e o senhor nos acompanhou. Sala ampla e sala de jantar, quatro quartos, sendo um suíte. Uma cozinha enorme e um terraço nos fundos. Anotamos logo o contato da proprietária e o endereço para falarmos pessoalmente com ela. Apesar da pouca iluminação que deixava o imóvel mais sombrio, não levamos muito em consideração. Precisávamos sair do pensionato e continuar no centro da cidade, onde estávamos acostumados. Era tudo que queríamos no momento.

                Era a ideia perfeita. Uma casa daquele tamanho naquela localização ia atender além de nossa necessidade. E naquela noite mesmo, na famosa reunião das decisões no terraço dos fundos do pensionato, ficou tudo resolvido: Íamos ocupar dois dos quartos da casa, sublocaríamos os outros dois e assim complementava a quantia do aluguel, reduzindo o custo para nós. Pensamos inclusive na festa de inauguração da nova moradia. Aquela garagem na frente era um local perfeito para o evento. Só tinha mesmo que melhorar a iluminação, aquilo parecia um cemitério. Tudo planejado faltava apenas falar com a dona da casa.

                Visitamos a dona da casa em sua residência para falar sobre a locação. A casa dela seguia o mesmo estilo. Construção antiga, fachada parecida e pouca luz, isso logo chamou nossa atenção. Sugue a proprietária, uma senhora já idosa, vestida toda de branco e com um olhar fixo em cada um de nós como se quisesse ler nossa mente através dos nossos olhos. Pouca conversa e ela fez três exigências: Deixa-la pensar por um dia. Trazer um fiador no dia seguinte e desde já alertava que nos faria vizitas para conferir se não estávamos sublocando parte do imóvel já que isso era crime. Pensei – Caramba, como ela descobriu nossos planos? Rs. Como as opções eram poucas para o momento e queríamos ficar no centro...

                No dia seguinte voltamos à casa da senhora. Dessa vez já levando conosco o professor Chaquibe Costa como nosso amigo e fiador. Chaquibe deu boas referencias nossas e disse para a proprietária que não se preocupasse. A conversa foi rápida e ficou quase tudo acertado, no entanto, ela ainda pediu mais um dia e nos deixou mais uma vez intrigados com o prazo e a exigência. Despedimos-nos e lentamente ela entrou com seu vestido branco quase arrastando no chão. Agradecemos a Chaquibe e apelamos para o dia seguinte. Já meio desanimados, ainda cogitou-se na reunião de fim de noite, desistirmos da casa. Mas, muito insistente como sou, resolvi ir até o fim para ver o que dava.

Na terceira visita, essa mais rápida ainda, enquanto fitava em nossos olhos com um olhar esquisito, ela nos despachou ali mesmo no terraço. Disse-nos de cara que não dava mais certo à locação. Curioso, eu perguntei o motivo e ela nos disse que uma irmã tinha falado na noite anterior que não era para alugar para nós. Teimoso como sou, ainda insisti: Mas em uma de nossas conversas a senhora falou que não tinha irmã, se tem, como ela pode reprovar a ideia se não nos conhece? Quando nos respondeu: Não tenho irmã viva, essa que me falou ontem, morreu á dois anos...  Entreolhamos-nos rapidamente, cada um com uma cara mais espantada. Despedimos-nos dela e nunca mais voltamos ali.

De volta ao pensionato, teríamos que esperar mais um mês, enquanto as coisas se definiriam melhor na empresa, antes de tomarmos outra decisão qualquer.

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cuidado com o orelhão!




Em frente ao pensionato tinha um orelhão muito disputado à noite. E devido a essa concorrência para utilização, encontraram como alternativa outro que ficava na Rua Getúlio Vargas em frete a Universidade Estadual de Administração e Contabilidade. Nos dias que não tinha aula naquela instituição, um deserto se formava naquela área e já não era mais confiável ficar de bobeira naquelas imediações à noite. Pensando nisso, em uma das reuniões noturnas no terraço dos fundos do pensionato, alertei aos companheiros sobre circular por ali depois das vinte e uma horas. Eles disseram que eu era muito matuto e morria de medo da cidade grande, achava que se saísse teria que acontecer alguma coisa. Fiz apenas o comentário e seguimos com as demais pautas da noite.

Encerrado o encontro noturno, partimos para a disputa do orelhão mais próximo (já que celular era algo meio que inimaginável para o momento, sem contar as tarifas altíssimas). Não sei de onde Juliane tirava assunto para conversar no mínimo trinta minutos todo santo dia com a mãe! Depois da mãe, vinha a ligação para o namorado e essa sim demorava. Eu e Bruno ficávamos na média dos dez minutos para saber dos familiares como estavam. Tida como ligações “normais” e nem era todo dia. Márcio tinha verdadeira aversão ao uso do tal aparelho. Acontecesse o que acontecesse na família dele (que por sinal não era pequena) ele nunca passava mais de dois minutos na linha, isso uma vez por semana e olhe lá. Em resumo, se tava todo mundo vivo, tava ótimo e fim de papo. E fechava sempre com a mesma frase: “Aqui tá bom”. Rs.

Agora se tinha uma coisa que Elivaldino não podia reclamar de Juliane era da demora no telefone, nisso ele tava de igual pra igual com ela. Por causa de um namoro com uma sertaneja, ele ficava pendurado todo dia e assim ficava meio que empatado em horas de uso. E naquela noite, buscando uma maior “privacidade” para travar mais uma das suas intermináveis conversas com a musa, Elivaldino saiu da fila e foi para o já falado orelhão da Getúlio Vargas. Ficamos aguardando nossa vez ali mesmo, afinal já passava das vinte e uma horas e eu como matuto que era, tinha medo. Como disseram eles.

Depois de demorar muito, o que era normal em suas ligações, mas tava passando um pouco do esperado. Nós já estávamos preocupados com Elivaldino quando ele apareceu mais branco que uma vela e meio desconfiado como cachorro que comeu sabão (assim dizia minha vó). É que ao encerrar as conversas, mesmo antes de deixar o orelhão, ele foi abordado por dois menores, que munidos de uma faca, faziam “seu trabalho” por ali. Como ele estava sem dinheiro, levaram sua sandália e deram uns empurrões nele. Ainda quiseram levar a bermuda também, mas ele, como um bom doido que sempre foi (rs) disse que podia furar, mas sem roupa ele não ficaria no meio da rua. Por sorte, “os caras” viram que ele era doido mesmo o deixaram ir sem levar e sem fazer mais nada. Depois de ver uma lâmina bem próxima a sua barriga, ele teve que dar o braço a torcer e concordar comigo que ali era realmente perigoso para rondar a noite.

 

Francisco Trajano