Mais uma de minha culinária exótica!
Na fábrica
onde eu trabalhava, o almoço era servido lá mesmo em um refeitório que
funcionava dentro da empresa. A comida para muita gente, aproximadamente 1000
pessoas na época que almoçavam no trabalho, não mantinha um padrão de qualidade
satisfatório sempre. Uma vez ou outra, a comida deixava a desejar. Mas nada que
substituindo ou dispensando um dos acompanhamentos não desse para esperar o
jantar em casa.
No dia que foi
servido uma carne guisada não muito bem feita, as reclamações foram diversas.
Quando passei no laboratório de eletrônica naquela tarde, os comentários ainda
eram sobre a carne do almoço. Dentre as mais variadas versões, a que mais se
comentava era que haviam servido língua bovina no almoço. Então uma pessoa
daquele setor me chamou e perguntou se eu sabia dizer se era língua mesmo
aquela “mistura do almoço”. Eu disse que a carne não ficou boa, no entanto,
aquilo lá nunca foi língua. Não deram muita crença e continuaram insistindo na
versão deles. Para finalizar o papo antes de seguir com minha inspeção em
outros setores, eu apenas comentei: E língua não é tão ruim assim, depende de
como é feita, assim como tudo. Um dia vocês vão comer língua e ainda vão
gostar. As caras de “êca” reprovaram minha sugestão!
Deixei passar
um tempo. Algo em torno de um mês. Em um final de semana, comprei uma língua
bovina. Escaldei, cortei em cubinhos pequenos e deixei abafada com temperos por
umas 2 horas. Foi só fritar os cubinhos e na segunda-feira cedo, aquecer com
tomate e cebola e colocar dentro de um tão popular cuscuz. Levei uma porção
caprichada para a empresa.
Quando eu
levava minhas experiências de culinária para o trabalho, os meus vizinhos de
sala, o pessoal de eletrônica, sempre provava das minhas iguarias. O que não
foi diferente quando cheguei e anunciei um cuscuz temperado no capricho. Logo
tudo foi dividido em porções menores e todos experimentaram enquanto elogiavam o
cheio e o gosto. Quando a degustação corria solta a alguns minutos, alguém me
perguntou que carne era aquela que eu usei para dar um gosto tão bom ao cuscuz.
Pedi que cada um avaliasse e tirasse suas próprias conclusões. A curiosidade
foi aguçada a partir de minha proposta. Os palpites foram diversos, mas ninguém
passou nem perto.
Depois que
todos haviam comido e continuava a me perguntar pela carne, eu voltei a
questionar se haviam gostado. A opinião que a comida estava gostosa foi
unanime. Até aquelas pessoas mais frescas que diziam jamais comer coisas assim “exóticas”
estavam de acordo. Para a surpresa de todos, eu relembrei aquele dia do
refeitório e falei: Naquele dia vocês não comeram, mas hoje sim a carne do
cuscuz foi língua de vaca. Alguns ainda tentaram cuspir o que estava estomago a
dentro, porém era inútil, melhor deixar de frescura e assumir que língua também
é bom. Depende de como é feito.
Francisco
Trajano
