sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cuscuz exótico




Com a chegada da turma nova de estagiários vindos do IFPB de Cajazeiras, praticamente adotamos os novatos. Auxiliamos nos primeiros dias orientando-os como deveriam proceder na empresa e fora dela. Até mesmo na hora de conseguir um lugar para morar. E eles acabaram arrumando um apartamento no prédio vizinho ao que morávamos na Rua Epitácio Pessoa. A família do sertão só crescia nas proximidades.

Dentre os novatos, veio Danilton. Ele fazia parte de uma segunda geração de Unedianos (assim chamávamos os alunos da UNED). Irmão de Danilo, que terminou o curso comigo. Juntou-se com Márcio Junior e logo estavam tomando uma ao som de “Toca do Vale” (banda de forró ruim da gota! Lembra Danilton? rsrs). Mas uma particularidade do boyzinho, como o chamávamos, é que sempre chegava assim de forma despretensiosa nos horário de café e as vezes até de almoço de domingo lá no nosso apartamento. Então quando a campainha tocava no domingo pela manha, alguém já dizia: Deve ser o serrote Danilton.

Não posso deixar de lembrar que era um visitante cheio de vontades. Não comia nada sem ficar perguntando a origem. Na verdade ele era cheio de frescura. O menino que não se acostumava com a vida longe dos cuidados de “mamãe”. E foi justamente devido a esse comportamento dele que resolvi aprontar uma. Ele já estava viciado na farofa de cuscuz com ovo ou charque que eu fazia nas manhãs dominicais. Até que pensei em uma carne diferente para a farofa.

Fui à feira da Prata e comprei um pulmão de boi. O popular bofe. Quando cheguei em casa cortei em pedaços e coloquei dentro de um caldeirão com agua fervendo para escaldar. Quando começou a sair a fumaça, Euza, a vizinha do andar de cima perguntou se eu estava cozinhando um urubu... Rsrs. Passado a primeira etapa, cortei em pedaços bem menores e coloquei nos temperos e abafei por algum tempo. Depois de fritar bem duas frigideiras grandes da iguaria, coloquei dentro de uma bacia de cuscuz e adicionei tomate, cebola e cheiro verde. E terminada minha experiência exótica, liguei pra Danilton e o chamei no ap.

Em poucos minutos, Danilton chegou e começou saborear o cuscuz junto conosco. Por incrível que pareça, ele elogiou a carne e perguntou se podia comer mais. – Pode botar o quanto quiser, hoje caprichei na quantidade também. Quando estava terminando de comer o segundo prato, ele começou a perguntar que carne era aquela. – Ora, você num comeu, sabe não é? Ele tentou, mas entre as opções: fígado, rins, coração. Mas nada de acertar. Se eu não contasse, ele nunca iria descobrir o que comeu com tanto gosto naquele café da manhã reforçado. Ficou meio que sem acreditar no final, mas era tarde, tinha comido e muito...

Olhe só um dado interessante que li hoje Danilton - o pulmão bovino, é uma fonte potencial de ferro. Chegando a ter três vezes mais ferro que o próprio fígado. Segundo os especialistas, a falta de hábito de consumi-lo gera um desperdício, pois cada animal abatido rende cerca de dois quilos de pulmão bovino. Saudável e suficiente para reverter drasticamente quadros de anemia. Eu num disse que era mais saudável do que aqueles biscoitos Crean Crak rsrs.

 

Francisco Trajano

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Um recruta recrutanto!


E na empresa, continuava tudo bem. Muita novidade, muito conhecimento novo e muita responsabilidade para manter-se a frete de um setor que estava em pleno crescimento. O Windows era o 95, mais já se falava na popularização da nova versão do Windows 98 e logo ele apareceu por lá também. E na montagem da rede de computadores, vi pela primeira vez o padrão da combinação de cores do cabo UTP par traçado e não esqueci até hoje.
Eu não ganhava muito bem, mas fazia o que mais gostava. Trabalhava com informática. E quando fazemos o que gostamos, nem vemos o tempo passar. O dia era pouco para tanta coisa. E a cada dia que passava naquela expansão da empresa, eu abraçava uma novidade diferente na área de TI. Primeiro vieram os micros, depois as impressoras, posteriormente as balanças eletrônicas e assim por diante. Mais ainda faltava alguma coisa.
Durante o período de estágio e com a efetivação na sequencia, nunca perdi o contato com a escola que me colocou no mercado de trabalho. Além de ficar mantendo o contato, sempre defendi o nome da instituição onde quer que estivesse. Marquei visitas técnicas para alunos concluintes, recepcionei-os na empresa e dei uma atenção que gostaria de ter tido quando visitei. Foi quando falei com a empresa para dar oportunidade de estágio para outros alunos do IFPB de Cajazeiras. Pedido aceito, o gerente me convidou para ir com ele a escola fazer a seleção. Eu muito feliz, já fiz fechei tudo junto a escola.
Viajamos a Cajazeiras e para mim foi uma satisfação enorme subir a rampa da escola, agora como visitante ilustre que estava alí tentando retribuir um pouco do que fizeram por mim. Fomos muito bem recebidos e acomodados. Meu gerente ficou encantado com a escola, a recepção que tivemos e admirou minha popularidade quando me viu ser reconhecido pelo vigilante, pelo jardineiro até chegar no diretor. Todos me cumprimentavam, puxavam conversa e me viam como vencedor, que eu já me considerava.
Não posso deixar de registrar aqui um fato engraçado. Tinha um professor na escola que não sei por que cargas d água não gostava muito de mim (acho que uma das únicas pessoas daquela unidade de ensino). E no dia que estávamos nos preparando para iniciar a seleção de estagiários naquela escola, o gerente combinou que eu ficaria aplicando uma prova escrita e encaminhando os alunos que fossem terminando para uma entrevista individual com ele numa sala do lado. O tal professor chegou no final da conversa e olhando para mim, disse: Você pode sair que eu aplico a prova. Apenas olhei para meu gerente e sorri enquanto o mesmo mandou essa para o professor: Não, desculpa mais quem vai sair é você. Não queremos ninguém da escola aplicando a prova e lembre-se, Trajano não é mais aluno dessa escola. Ele está aqui hoje como empresa e empresa que quer ajudar essa escola. Olhei para o professor, enquanto ele não sabia onde enfiar a cara e não perdi a oportunidade: tchau professor, até mais tarde.   
Terminando o processo de seleção, a convite da direção da escola, fomos comer pirão de queijo e galinha de capoeira em um restaurante tradicional no Bairro Jardim Oásis, onde ficava a escola. Depois, subir para a Rainha da Borborema carregando conosco, a expectativa de pessoas que como eu um dia, ficaram ansiosas pelo resultado. Lembrei-me da minha seleção e vi o quanto as coisas mudaram. Agora eu ia me reunir com a gerência da empresa e definir os escolhidos. Fiquei muito realizado com aquela viagem.


Francisco Trajano