terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Elivaldino, o retorno!


E num é que Elivaldino voltou a trabalhar na empresa de onde saiu no estágio dizendo que nunca mais voltaria! Pois é. O mundo é uma bola e essa bola gira. Passado alguns meses, na verdade quase dois anos, depois de trabalhar como mecânico de máquinas em uma empresa de pequeno porte na cidade de Cajazeiras, ele mudou o pensamento feito o sol muda de posição e me ligou um dia com a seguinte missão: - Trajano, eu estou a fim de morar em Campina Grande. Para isso preciso trabalhar e você vai conseguir um emprego para mim. Ainda tentei explicar pra ele que o período de estágio acabou e não era mais eu que resolvia tudo, mais foi inválido, quando aquele indivíduo botava uma coisa na cabeça, pronto!
Fiquei pensado que aquele cara só podia ter bebido. Não era fácil conseguir um emprego assim do dia para a noite como ele queria. Só que fiquei mais surpreso ainda foi quando ele disse que eu iria arrumar esse emprego na mesma empresa que ele havia feito o estágio. Aí eu tive certeza que ele não estava bem da cabeça. Quando questionei como eu ia arrumar essa colocação de trabalho na empresa que ele saiu dizendo que nunca mais voltaria (como contei na postagem anterior), ele disse simplesmente que confiava em mim, que era só esperar surgir a oportunidade certa e eu ia saber aproveitar.
Acho que as vezes um pouco de loucura só ajuda as coisas acontecerem de forma que venham a atender nossas expectativas. Eu trabalhava com TI (tecnologia da informação) e recebi um chamado para verificar uma impressora que resolveu parar de funcionar no meio de uma reunião. Detalhe, isso aconteceu uns cinco dias depois da ligação de Elivaldino. Bem, mas chegando a sala onde estava a impressora, comecei verificar os sintomas da paciente enquanto a reunião seguia na mesa do lado entre dois engenheiros mecânicos. Não pude deixar de ouvir o conteúdo da reunião logicamente. E lá “pelas tantas” um engenheiro fala para o outro:
- As máquina novas estão chegando semana que vem. Precisamos reforçar a equipe, não temos gente suficiente na manutenção para acompanhar essa montagem.
- Quantas pessoas você pretende colocar na equipe?
- Pelo menos quatro pessoas, sendo que desse número preciso de dois mecânicos. E não quero técnico pra vir aprender aqui não! Quero profissionais que já tenham uma experiência na área.
 Foi aí que vi a oportunidade que o “doido” falou e não deixei escapa:
- Senhores, estou escutando a conversa e posso lhe dizer que conheço um técnico de mecânica experiente que atende os pré-requisitos que vocês precisam. E melhor ainda, ele já foi dessa empresa e conhece as máquinas daqui também.
Foi quando um deles se lembrou de da fazer uma pergunta que eu temia que fizessem:
- E porque ele saiu daqui?
Como o engenheiro que assinou a saída dele tinha já não estava mais trabalhando por lá, fiquei tranquilo pra “costurar” a história: - Acabou o estágio e a perspectiva de efetivação quase num existia, ele achou melhor buscar emprego em outro lugar, mas agora está querendo voltar.
- E onde esse cara está agora?
- Lá em Cajazeiras, sertão do estado.
- Pois pegue o telefone da empresa aí e ligue para ele agora, se ele tiver interesse, compareça ainda essa semana aqui já de pose da documentação necessária.
E na semana seguinte, carregando no peito o mesmo escudo da empresa que ele disse que não voltaria, ele voltou. O menino maluquinho, com um pouco mais de maturidade e fazendo planos inclusive de se casar, retornou a casa de onde havia saído.
Dias depois ele se casou, e me deu outra missão nessa ocasião que também não foi fácil, mais isso é coisa pra contar em outra postagem futura. Parecia até ser filho meu... rs. Pense num menino que deu trabalho!



Francisco Trajano

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Pulando do barco!


Voltando lá pra o tempo do estágio, conversando com meu amigo Elivaldino hoje, lembrei-me de uma passagem interessante daquela época que foi o retorno dele a empresa que trabalhamos. Mas como contar o retorno sem antes falar da saída? Sendo assim, o retorno fica para a próxima postagem. Vamos falar da saída primeiro. Mãos a obra e como diria um repórter de um telejornal sensacionalista: Vamos à matéria.
Com o estágio caminhando para sua reta final, poucas eram as perspectivas de efetivação. Elivaldino como o menino mais “traquino” como chamávamos, já começava propagar na equipe ideias revolucionárias. - Pessoal, estagiário não precisa cumprir todos os dias de trabalho, se precisar faltar um dia a empresa não pode descontar, é lei. Só vai aumentar a quantidade de dias para completar as horas do estágio. Eu com a minha cautela para não “estragar” nossa estreia no mercado de trabalho, sempre aconselhava: Deixa isso pra lá, não estamos em situação confortável para seguir lei, precisamos completar nosso estágio de forma tranquila para tentar segurar o emprego depois. Ele nem sempre escutava e veio à oportunidade de por em prática as “leis” que ele tanto falava.
 Em uma sexta-feira corrida pra variar, pagamos o Expresso Guanabara (ônibus que faz a linha litoral – sertão passando por Campina Grande) à noite e fizemos aquele barulho no “busão” com destino a Cajazeiras. De lá, cada um seguia para sua localidade próxima dali, mas já marcava o reencontro pra o domingo à noite na rodoviária de Cajazeiras para o retorno. Viagem corrida, coisa de doido mesmo. Só saímos de Campina Grande no último ônibus do dia, às 23:45, entramos em Cajazeira quando o sol já iluminava toda a cidade em plena manhã do sábado. Depois de um cafezinho já segui viagem para Nazarezinho, casa de minha mãe.
No domingo a noite, conforme combinado, cheguei cedo no terminal rodoviário de Cajazeiras. Quando os demais começaram a chegar, já fomos comer o x-frango em um trailer na pracinha da frente. Todo mundo junto, já passava das 21:00 horas e nada do polêmico Elivaldino. Depois de mais algum tempo, ele se apresentou por lá de bermuda, sandália e sem bagagem. Disse que como estagiário, poderia faltar a segunda e que não ia perder uma festa naquela noite na “Terrinha”. Falei pra ele que se alguém perguntasse no dia seguinte eu diria que nem o vi, que ele se explicasse lá quando voltasse. Viajei preocupado com a “imagem do sertão” na empresa.
No dia seguinte, quando chegamos pra trabalhar, eu fugia dos supervisores para que não perguntassem pelo faltoso. Na terça, quando ele chegou na empresa, já recebeu um recado do engenheiro que fosse até a sala dele para uma conversa. Várias pessoas ficavam na mesma sala e quando Elivaldino entrou, nem sentou direito em frente ao seu gestor e já começou levar porrada. - Muito bonito pra você, começar sua vida profissional de forma irresponsável, faltando ao trabalho sem avisar e chegando normalmente pra trabalhar como se nada tivesse acontecido. E o superior continuou falando muito. Já o subordinado, apenas escutando tudo. Depois de todo discurso do chefe, Elivaldino solta a dele:
- Terminou?
- Sim. O que você tem a dizer?
E em um movimento rápido, ele levantou, tirou do bolso de traz a CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) jogou na mesa do engenheiro e disse:
- Der baixa aí. Vou terminar os serviços que comecei. Meu fardamento e EPI´s (Equipamentos de proteção individual) mando por Trajano amanhã, não quero mais pisar aqui. Essa empresa não merece um profissional como eu.
- Quer isso? Tenha calma rapaz, vamos conversar!
- O senhor já conversou até demais, tenha um bom dia! E assim o menino atrevido saiu da engenharia e se “embrenhou” fábrica adentro sem olhar pra traz.
Ficamos boquiabertos com a decisão do cabra. E na famosa reunião noturna no apartamento para o resumo do dia, Márcio disse que agente ia ficar “sujo” na empresa, talvez nem conseguíssemos mais a tão sonhada efetivação no primeiro emprego. Pronto, nosso insucesso profissional agora tinha nome e sobrenome: Elivaldino Clementino! Ôh muleque doido!
E acreditem, ainda teve retorno! Ele voltou a trabalhar nessa mesma empresa algum tempo depois. Logo logo eu conto!

Francisco Trajano



sexta-feira, 11 de julho de 2014

Calote em Dick Vigarista


             Nessa vivência no mercado de trabalho, onde passamos mais tempo na empresa do que em nossa própria casa, encontramos cada figura mais exótica que a outra e que nos dão subsídios para contarmos boas histórias como a que lembrei agora. Conheci um cara que merecia ser estudado. Um dos apelidos que mais chamavam esse nosso amigo era “Dick Vigarista” (famoso personagem de um desenho animado que tentava levar vantagem em tudo). O chamarei apenas de Dick nesse episódio, quem nos conhece vai saber bem de quem estou falando e vai dar boas risadas. Vamos à matéria.
            Comprei um som usado que tinha um pequeno defeito no botão de volume, mas que o restante funcionava perfeitamente, assim me garantiu a dona. Quando olhei o som, pensei comigo: Troco o potenciômetro do botão de volume e estará tudo resolvido. Não sei se por maldade de quem me vendeu ou pura falta de sorte minha, mas logo no segundo dia que estava usando, o som apresentou um defeito intermitente no leitor óptico. Hora lia CD, hora não lia. Naquela época, além de ser difícil ser encontrado um leitor compatível, o custo muitas das vezes não compensava. Pensei em devolver, mas desisti da ideia, nunca “corri” de um negócio, não seria dessa vez. Instalei o som no meu quarto e no dia que ele bem queria, eu escutava em bom som meus poucos Cds. Quando não, ouvia apenas rádio!
            Numa tarde de sábado, Dick chegou ao apartamento e começou a conversar com outro amigo que tínhamos em comum do trabalho. Enquanto isso coloquei um CD e o som estava de bom humor, resolveu tocar. Dick chegou à porta do quarto e elogiou o som. Lembrei que ele já havia aprontado comigo. Imediatamente aumentei mais o volume pelo controle remoto e pensei comigo, hoje ele me pagar pelos negócios não muito bem sucedidos que fez com todos da equipe. Dick estava na minha mão e ia pagar pelo que fez. Enquanto ele falava bem do som, cuidei em dizer que era um objeto de estimação justamente pela qualidade. Não demorou muito e a proposta de negócio surgiu. Depois de muita insistência dele e “resistência” minha, fechei negócio. Troquei num celular e ele ainda me voltou o valor equivalente ao que eu tinha pagado no som.
            Dois dias depois Dick veio reclamar dos defeitos do som e eu aleguei que foram causados durante o transporte. Não me segurei por muito tempo, depois contei a equipe na empresa que tinha me vingado por todos. Alguns acabaram falando para o novo dono do som que ele havia sido enganado pelo matuto do sertão. Ele não gostou muito, mas, negócio era negócio! Passaram-se 10 anos e sai da empresa. Até hoje quando relembro essa história com a própria vítima, arrancamos boas risadas. E os contemporâneos da época dizem que uma das grandes conquistas minhas na temporada que passei naquela organização foi ter alcançado o feito de ser conhecido como o único a conseguir dar um “calote” em Dick Vigarista... rs. Eita tempo bom. Foi mal Dick, mas eu precisava fazer aquilo. Não pelo valor financeiro!

Francisco Trajano

sábado, 3 de maio de 2014

De comer a língua!

 
Mais uma de minha culinária exótica!

Na fábrica onde eu trabalhava, o almoço era servido lá mesmo em um refeitório que funcionava dentro da empresa. A comida para muita gente, aproximadamente 1000 pessoas na época que almoçavam no trabalho, não mantinha um padrão de qualidade satisfatório sempre. Uma vez ou outra, a comida deixava a desejar. Mas nada que substituindo ou dispensando um dos acompanhamentos não desse para esperar o jantar em casa.

No dia que foi servido uma carne guisada não muito bem feita, as reclamações foram diversas. Quando passei no laboratório de eletrônica naquela tarde, os comentários ainda eram sobre a carne do almoço. Dentre as mais variadas versões, a que mais se comentava era que haviam servido língua bovina no almoço. Então uma pessoa daquele setor me chamou e perguntou se eu sabia dizer se era língua mesmo aquela “mistura do almoço”. Eu disse que a carne não ficou boa, no entanto, aquilo lá nunca foi língua. Não deram muita crença e continuaram insistindo na versão deles. Para finalizar o papo antes de seguir com minha inspeção em outros setores, eu apenas comentei: E língua não é tão ruim assim, depende de como é feita, assim como tudo. Um dia vocês vão comer língua e ainda vão gostar. As caras de “êca” reprovaram minha sugestão!

Deixei passar um tempo. Algo em torno de um mês. Em um final de semana, comprei uma língua bovina. Escaldei, cortei em cubinhos pequenos e deixei abafada com temperos por umas 2 horas. Foi só fritar os cubinhos e na segunda-feira cedo, aquecer com tomate e cebola e colocar dentro de um tão popular cuscuz. Levei uma porção caprichada para a empresa.

Quando eu levava minhas experiências de culinária para o trabalho, os meus vizinhos de sala, o pessoal de eletrônica, sempre provava das minhas iguarias. O que não foi diferente quando cheguei e anunciei um cuscuz temperado no capricho. Logo tudo foi dividido em porções menores e todos experimentaram enquanto elogiavam o cheio e o gosto. Quando a degustação corria solta a alguns minutos, alguém me perguntou que carne era aquela que eu usei para dar um gosto tão bom ao cuscuz. Pedi que cada um avaliasse e tirasse suas próprias conclusões. A curiosidade foi aguçada a partir de minha proposta. Os palpites foram diversos, mas ninguém passou nem perto.

Depois que todos haviam comido e continuava a me perguntar pela carne, eu voltei a questionar se haviam gostado. A opinião que a comida estava gostosa foi unanime. Até aquelas pessoas mais frescas que diziam jamais comer coisas assim “exóticas” estavam de acordo. Para a surpresa de todos, eu relembrei aquele dia do refeitório e falei: Naquele dia vocês não comeram, mas hoje sim a carne do cuscuz foi língua de vaca. Alguns ainda tentaram cuspir o que estava estomago a dentro, porém era inútil, melhor deixar de frescura e assumir que língua também é bom. Depende de como é feito.

 

Francisco Trajano

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Rock no Cercado



Depois dos últimos acontecimentos, fiquei em casa por algum tempo sem buscar novidades. Mas o tempo não para e a vida continua, o cabelo cresceu. Cortei novamente, agora no lugar de sempre. Alí em frente à rodoviária velha.

Um dia, os meninos que dividiam apartamento comigo chegaram falando do mais novo point de encontro de Campina Grande. Era um local recém-inaugurado para um “público alternativo” segundo eles. Conhecido como “Cercado”, o espaço funcionava três noites na semana, cada uma delas com um estilo de música diferente. E não se falava em outra coisa. Os meninos sempre falando do tal lugar, que ouviram falar que era bom demais, dava muita gente, etc. No trabalho, não se falava em outra coisa. Já estava enchendo o saco.

E em uma sexta-feira, dia do rock, começaram a se preparar para ir conhecer o tão falado Cercado. Márcio Júnior, o mais empolgado de todos, veio perguntar se eu ia com eles naquela noite.

- Não Márcio, prefiro ficar em casa, assistir um filme e depois dormir.

- Vamos cabra mole, lá vai ser massa demais, disse que uma das atrações de hoje a noite será a banda Cabrueira. Bom, se você num for vai ficar sozinho. Pois os meninos vão todos.

Depois de um tempo, Rodrigo também veio me chamar. Quando vi todos se aprontando, percebi que ia ficar sozinho em casa. Então resolvi sair um pouco, acompanhar os amigos e ver se o tal lugar prestava. Saímos cedo, a ida teria que ser a pé pra economizar. O ambiente ficava nas imediações do Parque do Povo (local onde acontece o Maior São João do mundo). Quando chegamos já estava movimentado.

Eu saí de Nazarezinho, morei em Cajazeiras e nunca aprendi dançar nem o tradicional forró, que danado eu tava fazendo alí? Num lugar nunca frequentado antes? Um show de rock. E lá estava a cena: muita gente enchendo a cara em umas mesas que ficavam na lateral, uma música confusa muito alta que não dava pra entender nada e a poeira subindo do chão de terra, efeito esse produzido por um grupo de pessoas com enorme necessidade de provar num sei pra quem que são diferentes por serem jovens. Se empurravam, batiam cabeças e parecia mais uma briga. E eu alí olhando e pensando com todo meu excesso de matutisse que graças a Deus nunca perdi: Olha onde eu vim parar.

E quando olho, pra minha surpresa, meus colegas que tanto falaram do lugar e se diziam roqueiros, estavam alí de braços cruzados, comendo um pouco daquela poeira e apenas olhando o movimento. Aí resolvi aprontar, os empurrei para o meio daquilo que chamavam de dança e comecei a pular com eles. Sem entender nada, olharam pra mim perguntando se eu estava louco. – Não, apenas quero aproveitar junto com você o lugar “tão bom” que me falaram.

Quando voltaram à inércia, eu me despedi deles, peguei um mototaxi e fui pra casa dormir. Nunca mais voltei naquele lugar. Que loucura aquela. Quanto mais eu procuro, mais entro errado...

 

Francisco Trajano


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Conhecendo um show diferente



Para entender melhor a sequencia dos fatos, é preciso ter lido a postagem anterior intitulada “Corte de cabelo”.

            É, realmente, o final de semana estava apenas começando. Ainda no sábado, chegando em casa com o Irmão, não encontrei nenhum dos meus amigos que dividiam comigo o apartamento. Por uma parte achei bom não enfrentar as chacotas e brincadeira por causa do corte de cabelo. O que apenas adiaria um pouco para que isso acontecesse. Só que aí comecei a pensar: Isso não pode ser o fim do mundo, o cabelo cresce. Por um momento cheguei até a ficar com pena de tudo que disse pra cabelereira. Mas, aí de quem vir com piadinhas pra mim.

            Final da tarde, noite chegando. Só os caras que não chegavam. Então resolvi, não posso ficar trancado em casa por causa disso. Tomei um banho, botei uma roupa e como estava um pouco frio em Campina Grande, coloquei uma jaqueta preta por cima e lá vou eu de visual novo. Chamei o Irmão que ainda estava por alí para ir comigo até um shopping da cidade em busca dos companheiros. Caminhei pra lá e pra cá com a impressão de que todos estavam olhando diferente para mim. Fingi que aquilo não me incomodava e não encontrando os amigos, voltei ao apartamento.

            Chegando ao apt., continuava vazio. E foi aí que o Irmão veio com uma ideia: - Se os meninos não chegaram, vamos dar uma volta, vou te levar pra conhecer um lugar. Perguntei onde e ele disse apenas que era surpresa e que eu ia gostar.

            - Não acha que por hoje já basta o quanto confiei em você?

            Mas como não queria ficar alí preso, pensei comigo mesmo: - Não pode ser pior do que o que já aconteceu hoje. E assim, sai de moto com o Irmão, confiando a ele minha noite de sábado. E a moto seguia. Passamos pelo bairro de Monte Santo e descemos à avenida que dar acesso a universidade federal. Eu nunca tinha passado por alí, vendo a UFCG que tanto falavam ainda fiquei tranquilo, no entanto, quando passamos pelo açude de Bodocongó comecei a me preocupar – Esse doido parece que vai pra o sertão. E quando perguntei ele falou: Confia em mim. Esse era o grande problema, confiar nele.

            A moto parou em frente a um prédio de faixada desgastada, mas que nem dava pra perceber direito pela luminosidade do enorme letreiro na parede. E quando menos espero, estávamos entrando em uma boate de strip-tease. Eu nunca havia entrado em um ambiente daqueles, comecei a pensar o quanto estava afastado de casa, fiquei muito assustado quando vi a clientela que estava bebendo no local. O Irmão olhou pra mim e mandou ficar tranquilo. Não sei por que, mas não consegui acreditar nele. Uma vez dentro, lembrei que eu estava tão mal encarado e com o visual “diferente” quanto algumas figuras que estavam alí. Encarnei o personagem do cara mal de jaqueta preta, cabeça raspada e capacete na mão (pensei numa cena, rs) e fui até o balcão onde uma cafetina gorda atendia. Pedi uma cerveja, a atendente informou que a entrega na mesa teria um pequeno acréscimo. O bárbaro malvado aqui (kkkkkkkk) apenas virou as costas enquanto dizia: Mande uma de suas meninas deixar minha cerveja na mesa. Desfilei no meio daquele povo fazendo pose de malvado enquanto tremia de medo por dentro e fui pra mesa aguardar minha bebida.

            Logo na segunda vez que me serviu a garota já me pediu cigarros. Eu estava fazendo contas mentalmente pra ver quantas cervejas podia tomar com a grana que tinha... Olhei para o Irmão e falei: Esse galego trabalha pra mim, não ando com dinheiro. Vamos Galego, der o dinheiro pra o cigarro da menina. O Irmão me olhou com cara de insatisfação, mas deu. E você, fale com a Dona que se não começar um show em 5 minutos eu vou embora. Logo foi providenciado. Enquanto o show acontecia, eu tentava bolar uma saída rápida daquele lugar. A cada hora ficava mais carregado.

            Depois da quarta cerveja pelo dobro do preço dos locais onde eu costumava comprar, chamei a atendente e pedi a conta dizendo pra ela que estava indo encontrar uns amigo e que mais tarde voltaria para fechar o ambiente apenas para meu grupo. Conversei até preço pra isso. Ela se animou com a ideia. Paguei a conta e sai rezando pra moto do Irmão não ter sido roubada naquele lugar esquisito e pra gasolina dar pra chegar em casa, levando em consideração que só andava na reserva. Saímos dalí o mais rápido que podia e fomos direto para o apartamento. Chegando lá minha vizinha me olhava quase sem me reconhecer e depois segurando o riso, me informou que meus amigos estavam em uma festa no Parque do Povo.

Pedi ao Irmão que desaparecesse e demorasse uns dias para voltar, de preferencia, com ideias melhores.

 

Francisco Trajano


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Corte de cabelo



Com poucas opções de lazer no final de semana, vez por outra jogávamos sinuca como uma das alternativas restantes. Tinha um funcionário da empresa que nos levava a uma sinuca que ele conhecia. Chamarei aqui apenas de “irmão”, fazendo menção a um tratamento usado por seguidores de determinadas igrejas, já que o mesmo se dizia fazer parte de uma (nada contra). Mesmo assim, não era todo fim de semana que dava pra jogar. Tinha que lavar a roupa, fazer comida e a faxina geral no apartamento.

Em um sábado pela manha, o Irmão chegou nos chamando para jogar e eu não aceitei. Falei que além de todas as tarefas eu ainda precisaria ir ao cabelereiro, levando em consideração a necessidade que se fazia visível rs. Sem ter o que fazer, o amigo disse que aguardaria a conclusão das tarefas e me daria uma carona de moto até o cabelereiro, depois que cortasse o cabelo eu poderia jogar um pouco com ele. Ficou por alí de bobeira e acabou esperando o almoço.

Filada a “bóia”, ele saiu comigo de moto para o salão que eu costumava ir. Este desviou a rota e disse que me levaria a uma profissional amiga dele que prestava o mesmo serviço. Aos poucos fui entendendo as verdadeiras intenções do safado. Conhecido como o cara que aplicava pra cima de tudo que era mulher, ele tinha um certo interesse na cabelereira, na qual me levou. Percebi isso nas primeiras conversas ao chegar ao local. Esse meu “amigo” também trabalhava de mototaxista e vendo uma cliente falando que precisava chegar rápido em casa, já mudou o foco para outro rabo de saia. Deixou-me esperando a vez no salão e se mandou com uma cliente.

Até ai tudo bem. Quando chegou minha vez de ser atendido, sentei na cadeira, a atendente colocou a camisa de proteção (que evita o contato com o cabelo cortado) e começou organizar o equipamento a ser usado. Com a máquina de corte na mão, ela então me perguntou: Número 2 ou 3? Acostumado com a outra cabelereira, respondi apenas: 2! Esse número era o ajuste da altura do corte que a máquina fazia, que era usada nas laterais e a parte de cima era feita com a tesoura. A aprendiz ajustou o acessório da máquina e começou fazendo um “buraco” começando bem no meio de minha cabeça.

Quando olhei para o espelho e vi a situação, me desesperei na hora. Fiquei meio estático e pensando comigo onde iria me esconder pelos próximos dias. Ia perder o emprego, tinha que adiar a viagem a casa de minha mãe no sertão. Como reencontrar meus companheiros, eles iam zoar bem pouquinho de mim... Bom, exageros de pensamentos a parte, veio a prática. Eu gritei aquela mulher, chamei-a de BURRA, que não sabia fazer nada, porque estava alí... E ela com as mão tremulas e sem conseguir falar direito, olhava pra mim com aqueles olhos enormes de medo e disse: Mas não foi o senhor que falou?

- Cale a boca!

- E agora? O que faço?

- Passe a máquina com o número 2 agora em toda a minha cabeça (não acredito que eu tava dizendo aquilo, mas era a única saída). Consiga um boné pra mim e se não quiser que as coisas piorem pra você, NÃO ME FALE EM PAGAMENTO! Você está me ouvindo?

Ela apenas balançou a cabeça que sim e concluiu o serviço, a MER... que fez. Alguns minutos depois chegou o irmão e foi me deixar em casa rindo o tempo todo de minha cara.

Mas quando eu pensei que tinha acontecido de tudo naquele sábado, me enganei e muito. O fim de semana estava apenas começando...

 

Francisco Trajano