Voltando
lá pra o tempo do estágio, conversando com meu amigo Elivaldino hoje, lembrei-me
de uma passagem interessante daquela época que foi o retorno dele a empresa que
trabalhamos. Mas como contar o retorno sem antes falar da saída? Sendo assim, o
retorno fica para a próxima postagem. Vamos falar da saída primeiro. Mãos a obra e
como diria um repórter de um telejornal sensacionalista: Vamos à matéria.
Com
o estágio caminhando para sua reta final, poucas eram as perspectivas de
efetivação. Elivaldino como o menino mais “traquino” como chamávamos, já
começava propagar na equipe ideias revolucionárias. - Pessoal, estagiário
não precisa cumprir todos os dias de trabalho, se precisar faltar um dia a
empresa não pode descontar, é lei. Só vai aumentar a quantidade de dias para
completar as horas do estágio. Eu com a minha cautela para não “estragar” nossa
estreia no mercado de trabalho, sempre aconselhava: Deixa isso pra lá, não
estamos em situação confortável para seguir lei, precisamos completar nosso
estágio de forma tranquila para tentar segurar o emprego depois. Ele nem sempre
escutava e veio à oportunidade de por em prática as “leis” que ele tanto
falava.
Em uma sexta-feira corrida pra variar, pagamos
o Expresso Guanabara (ônibus que faz a linha litoral – sertão passando por
Campina Grande) à noite e fizemos aquele barulho no “busão” com destino a
Cajazeiras. De lá, cada um seguia para sua localidade próxima dali, mas já
marcava o reencontro pra o domingo à noite na rodoviária de Cajazeiras para o
retorno. Viagem corrida, coisa de doido mesmo. Só saímos de Campina Grande no
último ônibus do dia, às 23:45, entramos em Cajazeira quando o sol já
iluminava toda a cidade em plena manhã do sábado. Depois de um cafezinho já
segui viagem para Nazarezinho, casa de minha mãe.
No
domingo a noite, conforme combinado, cheguei cedo no terminal rodoviário de Cajazeiras.
Quando os demais começaram a chegar, já fomos comer o x-frango em um trailer na
pracinha da frente. Todo mundo junto, já passava das 21:00 horas e nada do
polêmico Elivaldino. Depois de mais algum tempo, ele se apresentou por lá de
bermuda, sandália e sem bagagem. Disse que como estagiário, poderia faltar a
segunda e que não ia perder uma festa naquela noite na “Terrinha”. Falei pra
ele que se alguém perguntasse no dia seguinte eu diria que nem o vi, que ele se
explicasse lá quando voltasse. Viajei preocupado com a “imagem do sertão” na
empresa.
No
dia seguinte, quando chegamos pra trabalhar, eu fugia dos supervisores para que
não perguntassem pelo faltoso. Na terça, quando ele chegou na empresa, já recebeu
um recado do engenheiro que fosse até a sala dele para uma conversa. Várias
pessoas ficavam na mesma sala e quando Elivaldino entrou, nem sentou direito em
frente ao seu gestor e já começou levar porrada. - Muito bonito pra você, começar
sua vida profissional de forma irresponsável, faltando ao trabalho sem avisar e
chegando normalmente pra trabalhar como se nada tivesse acontecido. E o superior
continuou falando muito. Já o subordinado, apenas escutando tudo. Depois de
todo discurso do chefe, Elivaldino solta a dele:
-
Terminou?
-
Sim. O que você tem a dizer?
E em um
movimento rápido, ele levantou, tirou do bolso de traz a CTPS (Carteira de
Trabalho e Previdência Social) jogou na mesa do engenheiro e disse:
-
Der baixa aí. Vou terminar os serviços que comecei. Meu fardamento e EPI´s
(Equipamentos de proteção individual) mando por Trajano amanhã, não quero mais
pisar aqui. Essa empresa não merece um profissional como eu.
-
Quer isso? Tenha calma rapaz, vamos conversar!
-
O senhor já conversou até demais, tenha um bom dia! E assim o menino atrevido
saiu da engenharia e se “embrenhou” fábrica adentro sem olhar pra traz.
Ficamos
boquiabertos com a decisão do cabra. E na famosa reunião noturna no apartamento
para o resumo do dia, Márcio disse que agente ia ficar “sujo” na empresa, talvez
nem conseguíssemos mais a tão sonhada efetivação no primeiro emprego. Pronto,
nosso insucesso profissional agora tinha nome e sobrenome: Elivaldino
Clementino! Ôh muleque doido!
E
acreditem, ainda teve retorno! Ele voltou a trabalhar nessa mesma empresa algum
tempo depois. Logo logo eu conto!
Francisco
Trajano

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