quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Pulando do barco!


Voltando lá pra o tempo do estágio, conversando com meu amigo Elivaldino hoje, lembrei-me de uma passagem interessante daquela época que foi o retorno dele a empresa que trabalhamos. Mas como contar o retorno sem antes falar da saída? Sendo assim, o retorno fica para a próxima postagem. Vamos falar da saída primeiro. Mãos a obra e como diria um repórter de um telejornal sensacionalista: Vamos à matéria.
Com o estágio caminhando para sua reta final, poucas eram as perspectivas de efetivação. Elivaldino como o menino mais “traquino” como chamávamos, já começava propagar na equipe ideias revolucionárias. - Pessoal, estagiário não precisa cumprir todos os dias de trabalho, se precisar faltar um dia a empresa não pode descontar, é lei. Só vai aumentar a quantidade de dias para completar as horas do estágio. Eu com a minha cautela para não “estragar” nossa estreia no mercado de trabalho, sempre aconselhava: Deixa isso pra lá, não estamos em situação confortável para seguir lei, precisamos completar nosso estágio de forma tranquila para tentar segurar o emprego depois. Ele nem sempre escutava e veio à oportunidade de por em prática as “leis” que ele tanto falava.
 Em uma sexta-feira corrida pra variar, pagamos o Expresso Guanabara (ônibus que faz a linha litoral – sertão passando por Campina Grande) à noite e fizemos aquele barulho no “busão” com destino a Cajazeiras. De lá, cada um seguia para sua localidade próxima dali, mas já marcava o reencontro pra o domingo à noite na rodoviária de Cajazeiras para o retorno. Viagem corrida, coisa de doido mesmo. Só saímos de Campina Grande no último ônibus do dia, às 23:45, entramos em Cajazeira quando o sol já iluminava toda a cidade em plena manhã do sábado. Depois de um cafezinho já segui viagem para Nazarezinho, casa de minha mãe.
No domingo a noite, conforme combinado, cheguei cedo no terminal rodoviário de Cajazeiras. Quando os demais começaram a chegar, já fomos comer o x-frango em um trailer na pracinha da frente. Todo mundo junto, já passava das 21:00 horas e nada do polêmico Elivaldino. Depois de mais algum tempo, ele se apresentou por lá de bermuda, sandália e sem bagagem. Disse que como estagiário, poderia faltar a segunda e que não ia perder uma festa naquela noite na “Terrinha”. Falei pra ele que se alguém perguntasse no dia seguinte eu diria que nem o vi, que ele se explicasse lá quando voltasse. Viajei preocupado com a “imagem do sertão” na empresa.
No dia seguinte, quando chegamos pra trabalhar, eu fugia dos supervisores para que não perguntassem pelo faltoso. Na terça, quando ele chegou na empresa, já recebeu um recado do engenheiro que fosse até a sala dele para uma conversa. Várias pessoas ficavam na mesma sala e quando Elivaldino entrou, nem sentou direito em frente ao seu gestor e já começou levar porrada. - Muito bonito pra você, começar sua vida profissional de forma irresponsável, faltando ao trabalho sem avisar e chegando normalmente pra trabalhar como se nada tivesse acontecido. E o superior continuou falando muito. Já o subordinado, apenas escutando tudo. Depois de todo discurso do chefe, Elivaldino solta a dele:
- Terminou?
- Sim. O que você tem a dizer?
E em um movimento rápido, ele levantou, tirou do bolso de traz a CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) jogou na mesa do engenheiro e disse:
- Der baixa aí. Vou terminar os serviços que comecei. Meu fardamento e EPI´s (Equipamentos de proteção individual) mando por Trajano amanhã, não quero mais pisar aqui. Essa empresa não merece um profissional como eu.
- Quer isso? Tenha calma rapaz, vamos conversar!
- O senhor já conversou até demais, tenha um bom dia! E assim o menino atrevido saiu da engenharia e se “embrenhou” fábrica adentro sem olhar pra traz.
Ficamos boquiabertos com a decisão do cabra. E na famosa reunião noturna no apartamento para o resumo do dia, Márcio disse que agente ia ficar “sujo” na empresa, talvez nem conseguíssemos mais a tão sonhada efetivação no primeiro emprego. Pronto, nosso insucesso profissional agora tinha nome e sobrenome: Elivaldino Clementino! Ôh muleque doido!
E acreditem, ainda teve retorno! Ele voltou a trabalhar nessa mesma empresa algum tempo depois. Logo logo eu conto!

Francisco Trajano



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