sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cuscuz exótico




Com a chegada da turma nova de estagiários vindos do IFPB de Cajazeiras, praticamente adotamos os novatos. Auxiliamos nos primeiros dias orientando-os como deveriam proceder na empresa e fora dela. Até mesmo na hora de conseguir um lugar para morar. E eles acabaram arrumando um apartamento no prédio vizinho ao que morávamos na Rua Epitácio Pessoa. A família do sertão só crescia nas proximidades.

Dentre os novatos, veio Danilton. Ele fazia parte de uma segunda geração de Unedianos (assim chamávamos os alunos da UNED). Irmão de Danilo, que terminou o curso comigo. Juntou-se com Márcio Junior e logo estavam tomando uma ao som de “Toca do Vale” (banda de forró ruim da gota! Lembra Danilton? rsrs). Mas uma particularidade do boyzinho, como o chamávamos, é que sempre chegava assim de forma despretensiosa nos horário de café e as vezes até de almoço de domingo lá no nosso apartamento. Então quando a campainha tocava no domingo pela manha, alguém já dizia: Deve ser o serrote Danilton.

Não posso deixar de lembrar que era um visitante cheio de vontades. Não comia nada sem ficar perguntando a origem. Na verdade ele era cheio de frescura. O menino que não se acostumava com a vida longe dos cuidados de “mamãe”. E foi justamente devido a esse comportamento dele que resolvi aprontar uma. Ele já estava viciado na farofa de cuscuz com ovo ou charque que eu fazia nas manhãs dominicais. Até que pensei em uma carne diferente para a farofa.

Fui à feira da Prata e comprei um pulmão de boi. O popular bofe. Quando cheguei em casa cortei em pedaços e coloquei dentro de um caldeirão com agua fervendo para escaldar. Quando começou a sair a fumaça, Euza, a vizinha do andar de cima perguntou se eu estava cozinhando um urubu... Rsrs. Passado a primeira etapa, cortei em pedaços bem menores e coloquei nos temperos e abafei por algum tempo. Depois de fritar bem duas frigideiras grandes da iguaria, coloquei dentro de uma bacia de cuscuz e adicionei tomate, cebola e cheiro verde. E terminada minha experiência exótica, liguei pra Danilton e o chamei no ap.

Em poucos minutos, Danilton chegou e começou saborear o cuscuz junto conosco. Por incrível que pareça, ele elogiou a carne e perguntou se podia comer mais. – Pode botar o quanto quiser, hoje caprichei na quantidade também. Quando estava terminando de comer o segundo prato, ele começou a perguntar que carne era aquela. – Ora, você num comeu, sabe não é? Ele tentou, mas entre as opções: fígado, rins, coração. Mas nada de acertar. Se eu não contasse, ele nunca iria descobrir o que comeu com tanto gosto naquele café da manhã reforçado. Ficou meio que sem acreditar no final, mas era tarde, tinha comido e muito...

Olhe só um dado interessante que li hoje Danilton - o pulmão bovino, é uma fonte potencial de ferro. Chegando a ter três vezes mais ferro que o próprio fígado. Segundo os especialistas, a falta de hábito de consumi-lo gera um desperdício, pois cada animal abatido rende cerca de dois quilos de pulmão bovino. Saudável e suficiente para reverter drasticamente quadros de anemia. Eu num disse que era mais saudável do que aqueles biscoitos Crean Crak rsrs.

 

Francisco Trajano

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Um recruta recrutanto!


E na empresa, continuava tudo bem. Muita novidade, muito conhecimento novo e muita responsabilidade para manter-se a frete de um setor que estava em pleno crescimento. O Windows era o 95, mais já se falava na popularização da nova versão do Windows 98 e logo ele apareceu por lá também. E na montagem da rede de computadores, vi pela primeira vez o padrão da combinação de cores do cabo UTP par traçado e não esqueci até hoje.
Eu não ganhava muito bem, mas fazia o que mais gostava. Trabalhava com informática. E quando fazemos o que gostamos, nem vemos o tempo passar. O dia era pouco para tanta coisa. E a cada dia que passava naquela expansão da empresa, eu abraçava uma novidade diferente na área de TI. Primeiro vieram os micros, depois as impressoras, posteriormente as balanças eletrônicas e assim por diante. Mais ainda faltava alguma coisa.
Durante o período de estágio e com a efetivação na sequencia, nunca perdi o contato com a escola que me colocou no mercado de trabalho. Além de ficar mantendo o contato, sempre defendi o nome da instituição onde quer que estivesse. Marquei visitas técnicas para alunos concluintes, recepcionei-os na empresa e dei uma atenção que gostaria de ter tido quando visitei. Foi quando falei com a empresa para dar oportunidade de estágio para outros alunos do IFPB de Cajazeiras. Pedido aceito, o gerente me convidou para ir com ele a escola fazer a seleção. Eu muito feliz, já fiz fechei tudo junto a escola.
Viajamos a Cajazeiras e para mim foi uma satisfação enorme subir a rampa da escola, agora como visitante ilustre que estava alí tentando retribuir um pouco do que fizeram por mim. Fomos muito bem recebidos e acomodados. Meu gerente ficou encantado com a escola, a recepção que tivemos e admirou minha popularidade quando me viu ser reconhecido pelo vigilante, pelo jardineiro até chegar no diretor. Todos me cumprimentavam, puxavam conversa e me viam como vencedor, que eu já me considerava.
Não posso deixar de registrar aqui um fato engraçado. Tinha um professor na escola que não sei por que cargas d água não gostava muito de mim (acho que uma das únicas pessoas daquela unidade de ensino). E no dia que estávamos nos preparando para iniciar a seleção de estagiários naquela escola, o gerente combinou que eu ficaria aplicando uma prova escrita e encaminhando os alunos que fossem terminando para uma entrevista individual com ele numa sala do lado. O tal professor chegou no final da conversa e olhando para mim, disse: Você pode sair que eu aplico a prova. Apenas olhei para meu gerente e sorri enquanto o mesmo mandou essa para o professor: Não, desculpa mais quem vai sair é você. Não queremos ninguém da escola aplicando a prova e lembre-se, Trajano não é mais aluno dessa escola. Ele está aqui hoje como empresa e empresa que quer ajudar essa escola. Olhei para o professor, enquanto ele não sabia onde enfiar a cara e não perdi a oportunidade: tchau professor, até mais tarde.   
Terminando o processo de seleção, a convite da direção da escola, fomos comer pirão de queijo e galinha de capoeira em um restaurante tradicional no Bairro Jardim Oásis, onde ficava a escola. Depois, subir para a Rainha da Borborema carregando conosco, a expectativa de pessoas que como eu um dia, ficaram ansiosas pelo resultado. Lembrei-me da minha seleção e vi o quanto as coisas mudaram. Agora eu ia me reunir com a gerência da empresa e definir os escolhidos. Fiquei muito realizado com aquela viagem.


Francisco Trajano

sábado, 19 de outubro de 2013

Vizinhos do Sertão




E segue viagem. Rodrigo começou dar aulas de Educação Física na Escola Cenecista no distrito de São José da Mata. Assim, ele ocupava todo o seu tempo com a correria da faculdade e com o trabalho. Eu e Márcio apenas trabalhávamos e quando não estávamos na empresa, cuidávamos da roupa (lavar e passar) e do apartamento. Dalton apenas estudava. Como o curso de engenharia elétrica é muito “puxado” cada vez que chegávamos em casa estava lá Dalton com cara de pirado debruçado por cima dos livros de cálculo.
Nas noites de sábado, eu e Rodrigo frequentávamos a igreja de São Francisco que fica a uma quadra do apartamento onde morávamos. E quando coincidia um fim de semana com pagamento e folga de todos, a feijoada no domingo era sagrada. A conversa se estendia até mais tarde e apesar de está cercado por prédios onde a maioria dos moradores eram estudantes, o barulho de música ia até as 22:00 horas. Depois disso, se tivesse que continuar seria em um volume menor para evitar problemas.
Em num domingo, eu me aproximava do ponto do ônibus 555 próximo a praça para voltar pra casa quando avistei um cara esperando ônibus que não me era estranho. Olhei mais de perto para tirar dúvida e enquanto observava ele começou conversar com outra pessoa. Ouvindo a voz e alguns dizeres próprios da região, eu matei a charada. Era mais um sertanejo e eu já tinha uma ideia de onde.
- Posso não lembrar seu nome, mas te conheço. Você lá da cidade de Sousa no sertão. Ele sorriu e confirmou minha suspeita. Era Alexandre, um sousense que fazia faculdade de jornalismo. Depois da conversa, descobri que ele estava procurando apartamento para alugar. Lembrei-me que no prédio onde morava tinha um disponível. Aí ele já foi comigo no ônibus, descemos na minha moradia e apresentei-o para os outros inquilinos.
- Pode olhar o apartamento nosso que o que está disponível é no mesmo formato e tamanho que esse. Ele gostou muito do tamanho do imóvel e do preço. Marcou de falar com o Sr. José Alves (proprietário) na segunda-feira e em menos de uma semana, tornou-se nosso vizinho. Com Alexandre veio Euza (também da cidade de Sousa) e Daniel. Mesmo depois de muito tempo, com todas as mudanças em nossas vidas e distância que moramos hoje, quando reencontramos ainda chamamos um ao outro de “vizinho”.
E no primeiro final de semana com os novos vizinhos, fizemos uma confraternização dos apartamentos para celebrar a chegada dos novatos. A tarde de domingo foi regada a muita conversa, feijoada, cerveja e vinho. E a conversa se estendeu entrando pela noite. Opa, parar cedo! Amanha tem trabalho. De volta a realidade, fomos descansar e esperar mais uma segunda-feira.
Francisco Trajano

sábado, 7 de setembro de 2013

Mobilhando o novo apartamento



E no dia marcado para organizar a nova moradia, fui procurado por mais um navegante daquela luta pela permanência na cidade grande. Era Dalton Guedes (estudante de engenharia elétrica), que pretendia deixar o pensionato só não sabia como ainda, mas como acompanhou parte das nossas conversas por lá, veio pedir pra pegar carona e ir morar conosco. Eu não o conhecia direito, até pelo pouco tempo. Mas só o fato de tirar mais um daquele lugar... Falei com Marcio e Rodrigo e acertamos o seguinte: Além de ser mais uma vingança contra a velha, é mais um pra dividir o aluguel e as demais despesas. Da composição antiga ficamos eu e Márcio Junior. Reforçando o time, agora tinha o cearense Rodrigo vindo do Crato e Dalton, vindo da cidade de Corrente no Piauí.

E em mais uma tarde de sábado, nosso programa foi: vassoura, balde, rodo e sabão em pó. Lavar o novo apartamento para onde mudaríamos no domingo. Pelo menos uma coisa já tínhamos encontrado em comum, diferente do som que escutávamos no pensionado, Raul Seixas agradou a todos enquanto faxinávamos. O Apartamento da Epitácio Pessoa era grande. Tinha três quartos. No quarto maior, ficamos eu e Márcio. Em cada um dos quartos menores, um dos novatos assumiu como sua área privada.

Um apartamento tão grande e sem nada dentro. Alguma coisa tinha que ser feito. Depois de indicações, visitamos uma feira de móveis usados no Bairro de Santa Rosa. Com muita pechincha e pouco investimento para cada um, mobilamos nossa morada. Uma mesa grande com seis cadeiras no estilo antigo encheu nossa sala de jantar.  No mesmo pacote, compramos um fogão de quatro bocas, uma geladeira e cômodas para os quartos. Dormíamos em colchões no chão mesmo por enquanto.

Com o nosso recanto um pouco mais organizado, fizemos uma reunião para definir as regras do ambiente. Calendário para fazer a faxina, sequencia da compra de água mineral, como seria a divisão das compras e outras pautas necessárias para manter a ordem. Quem cozinhava, não lavava louça. Márcio cozinhava bem e cobrava muito a limpeza da pia (oh homem exagerado rs). Não sei se Dalton aprendeu cozinhar porque era quem mais lavava louça. Rodrigo também tinha suas habilidades na cozinha e eu, além das comidas corriqueiras, era conhecido pelas comidas mais “exóticas”. Macarronada, dobradinha, mungunzá, rabada e até bolo. Isso sem contar a tradicional feijoada dos domingos, onde o chefe da cozinha era eu.

Com o apartamento “mobilhado” e as regras definidas, precisávamos inaugurar a geladeira. E antes mesmo da primeira feira, o melhor teste pra ver se gelava mesmo foi com cerveja. Era hora de comemorar aquela nova etapa conquistada.

Francisco Trajano

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

"Frango à vira lata"




Como a internet aproxima as pessoas. Hoje conversei com Rodrigo, o cearense que dividiu apartamento conosco (já citado em alguma das postagens anteriores). Enquanto conversamos, falei um pouco sobre o blog e ele me lembrou de um capítulo que aconteceu no pensionato que não pode ficar de fora dessa história (Esse pensionato redeu histórias). E se não podia ficar fora, vamos adicioná-lo.
Nos últimos dias de convívio naquela hospedaria, quando as coisas já não estavam mais tão tranquilas, a proprietária precisou sair num sábado para visitar uns parentes e deixou que sua neta ficasse responsável por preparar o nosso almoço. A eleita não viu problemas e disse que podia deixar com ela.
Sem dinheiro e sem ter para onde ir no final de semana, após o café do sábado, ficamos de jogar conversa fora reunidos em um mesa grande no terraço que dava acesso a cozinha. Até que o filho da dona chegasse e botasse a fita cassete de Beto Barbosa pela milésima vez. E começamos a ouvir tudo de novo até a turma começar se dispersar. Aos fundos, dividido por um portão vazado, ficava um quintal – residência de uma vira lata de estimação da neta da velha.
Apesar da comida da pensão não ser de qualidade tão boa, fiquei mais preocupado ainda quando soube quem iria preparar naquele dia, tendo em vista que a criatura parecia ter alguns parafusos a menos na cachola. E minha preocupação não foi a toa. Cantarolando letras de músicas que eu nem conhecia, a nova cozinheira começou a preparar a refeição. Ainda no terraço, observei quando ela começou cortar o frango em uma pia não muito adequada para tal atividade. Mesmo assim, até então estava dentro do aceitável para os padrões que vivíamos alí. Ainda de olho nela, vi quando foi até o portão vazado conversar com a cadela. Brincou, acariciou por tudo que foi lugar e chegou até a beijar no rosto da vira lata. Ao concluir a seção animal, como se nada tivesse acontecido, voltou a pia, pegou o frango e continuou a cortar.
Foi a gota d água. Perdi o controle. Dei tanto do grito nessa criatura, que quase a deixo de ouvido estourado. Sebosa foi o menor nome que ela levou. Os outros foram chegando e perguntando o que era... Ela, paralisada e branca me olhava com cada olho que vi a hora sair da caixa. Eu e os demais colegas, sem poses financeiras, tivemos que comer sanduiche na rua, porque o “frango à cachorro” tirou qualquer apetite naquela residência. Mais um motivo para apresar a saída dalí. Isso foi o que vi, mas só Deus sabe o que podemos ter comido alí.
Valeu pela dica Rodrigo, se tiver mais alguma, manda pra cá e será publicada no blog.
 
Francisco Trajano

terça-feira, 16 de julho de 2013

Técnico em Informática



Reestruturada a equipe na nova morada, partimos para as cobranças na empresa. Com a saída de Juliane e a demissão do técnico do laboratório de informática, assumi ainda como estagiário, o setor de tecnologia da informação sozinho. Agora não teria mais a quem recorrer muito. Era eu e eles. Os tais computadores que eu tanto queria trabalhar, agora começavam a se multiplicar junto com seus problemas na fábrica e todos sobre minha responsabilidade.

Os desafios só aumentavam. E eu alí, firme e forte enfrentando todos eles sem pestanejar. Um técnico em eletromecânica e curioso de informática, tinha a sua frente agora a oportunidade de desenvolver um trabalho na área que tanto queria. Só não seria fácil. Mas coisa fácil demais não presta mesmo. Foi quando o gerente me chamou na sala dele, pensei comigo: Ou me demite hoje ou vai me contratar. Até que enfim. Será?

- Você está preparado para assumir o setor de TI da empresa?

- Aceito o desafio, mas preciso de sua ajuda para isso.

- Em que sentido?

- Estou esperando minha efetivação, sou estagiário ainda lembra? E tem mais, preciso de um curso de aperfeiçoamento para encarar as novas tarefas.

- A efetivação, estarei resolvendo nos próximos dias e quanto ao curso, procure a amanhã no centro da cidade um que atenda sua necessidade, traga o orçamento e faremos o possível para você iniciar o quanto antes.

O que era para ser um estágio de seis meses acabou durando onze meses. Em alguns dias depois da conversa, não com a remuneração que eu esperava mais fui contratado como técnico. O importante no momento foi sair da quase infinita condição de estagiário. Consegui um curso muito bom de técnico em hardware conforme mandaram e realizei para aquele momento um sonho: Tornei-me um efetivo técnico em informática de uma empresa de grande porte. Adeus mecânica de máquinas pesadas. Eu agora estava onde mais queria, no meio dos computadores.

A versão do Windows era 95, mas o futuro já batia a porta. Instalei a primeira licença de Windows 98 e já se falava em compartilhamento de dados e recursos entre máquinas. Aproveitei o embalo e na sequência, fiz um curso de rede de computadores que estava sendo oferecido na cidade também. E assim começamos a lançar os famosos cabos azuis e aos poucos ir interligando os vinte e cinco computadores que tinham na fábrica.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Homem do sertão, homem de palavra



Mas antes de falar da nova morada na Rua Epitácio Pessoa, preciso contar como cheguei a esse apartamento e a negociação para o aluguel.

E depois de alguns contatos e indicações, me preparei para ir conversar com o senhor dono do prédio que tinha o apartamento disponível. Antes de ir, um amigo me avisou: O velho lá é ignorante, sabe seu Lunga? Pronto. É parecido. Depois de pensar um pouco, imaginei comigo mesmo, o máximo que ele pode dizer é um NÃO! Mais nada. Pensando assim, segui ao encontro do recomendado locador. Chegando ao comercio do mesmo, encontrei um velho com uma aparência de “casca-grossa”. Fui direto enfrenta-lo:

- Bom dia Seu Zé, eu sou o rapaz que está interessado em alugar o apartamento disponível que o senhor tem.

- Bom dia, já me falaram de você. Você é de onde? E quantas pessoas vem morar aí além de você?

- Eu venho do sertão, de uma cidade chamada Nazarezinho, perto de Sousa, Cajazeiras, aquele mundo alí. O Sr. Sabe onde fica? E pra cá vem eu e mais dois amigos. Esses aqui são Rodrigo e Márcio.

- Saber direito onde fica num sei, mas se é do sertão, lá tem fama dos cabras ser direito, honesto e trabalhador. Assim, espero que você seja também. Tão fazendo o que na cidade?

- Viemos trabalhar e quando as coisas se estabilizarem mais pretendemos estudar por aqui também. Estamos numa empresa têxtil fazendo um estagio na área técnica. Estamos na luta para mudar a situação atual de vida.

- Gostei do seu jeito, você será o responsável pela equipe. Tá aqui a chave, o apartamento é o 101 no primeiro andar. Vão logo lá dar uma olhada e depois acertamos o resto. A água e energia já estão inclusos no valor cobrado do aluguel.

Estranhamos a atitude de mandar olhar logo assim de cara, mas como ele deu um voto de confiança por sermos do sertão, seguimos para ver o apartamento. Eu, Márcio e Rodrigo analisamos o imóvel e gostamos muito. Tanto pelo espaço físico, preço e pela proximidade do centro da cidade. Só faltava agora fechar o negócio. Desci curioso para saber as exigências que o proprietário faria para isso. Assim que voltei ele perguntou o que achamos e falei o quanto ficamos interessados. Agora queria saber dele quais eram os pré-requisitos:

- O senhor exige que tenha fiador (isso porque em outros casos pediram)?

- Fiador aqui é sua palavra. Se num pagar, boto pra fora no outro dia e estamos resolvidos. Aqui num tem esse negócio não. Se ver que vai atrasar, todo mundo tem problema eu sei. Mas num vá dar uma de doido e passar na minha frente sem dar nenhuma satisfação não, se não boto pra fora do mesmo jeito. Agora se avisar, é conversando que se entende.

- E o pagamento como é?

- O normal de todo aluguel né? Paga a primeira hoje, se muda pra cá amanhã e a cada 30 dias eu quero o dinheiro. Na saída quero tudo limpinho como entreguei.

- Precisa assinar alguma coisa?

- Não, como falei o documento aqui é a palavra.

- Tudo bem seu Zé, estamos acertados então. Mais tarde pegamos a chave, pagar o primeiro mês e vamos fazer a mudança amanhã logo cedo.

- Só mais uma coisa: Temos outros vizinhos aí, lembrem-se disso. Portanto, nada de festinhas a noite toda com som alto. Onze da noite baixa o som para não incomodar e não comam ninguém na escada tá certo? Palavras de Seu Zé!

- Tá certo seu Zé (não teve como controlar o riso nessa hora, mais o velho continuou sério). Mais tarde estaremos aí para lavar o apartamento.

Com toda desgraça que falaram, a conversa com o velho foi tranquila e até mesmo divertida. Eu agora estava indo dividir os sonhos e as contas com dois cearenses. Um do Crato e outro de Aurora. Vamos ver no que é que dar!

 
Francisco Trajano

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Faltou Gás, sobrou jaca!


Reporto-me novamente a um capítulo que quebra a cronologia dos fatos. Quando ainda estávamos na formação original dos cinco sobreviventes do estágio, recebemos uma visita. Tratava-se de um namorado de Juliane, também conhecido nosso da época de escola técnica. O cara era gente boa. Mesmo assim, ele não podia ficar de fora das armações de Elivaldino.
Com a chegada da visita no apartamento da Praça Félix Araújo, Juliane, a mais interessada em impressionar o visitante, cuidou da arrumação do ambiente e ainda pediu que deixassem por conta dela o jantar daquele dia. O costume era que houvesse um revezamento na cozinha, mas o padrão foi quebrado para atender a solicitação. E numa tentativa de fazer algo diferente, Juliane exagerou em alguns condimentos e justo no que o cara tinha alergia. Logo que começou a comer, ele passou a espirar que quase num para mais. Márcio para não perder a oportunidade de abrir uma discursão com Juliane comenta: Assim você perde o jantar e o casamento minha filha!
Passado o primeiro momento da estadia, no dia seguinte deixamos o hóspede no apartamento e fomos ao nosso shopping favorito de domingo, a feira da prata. Na volta, aguardávamos Elivaldino em um posto de gasolina na esquina da feira para comprar o gás de cozinha que havia acabado justo naquele dia. Eis que surge o indivíduo com uma enorme jaca nas costas e com a notícia de que tinha “descompletado” o dinheiro do gás. Mesmo assim pedimos que o gás fosse entregue. Seguindo a caminho de casa eu e Márcio (pra variar reclamando) com algumas sacolas, o funcionário do posto com o botijão de gás em um carro de mão nos acompanhando e Elivaldino com a jaca.
Ao chegarmos em frente a praça, avistamos nossos colega visitante escorado na entrada do prédio olhando o movimento da rua sem nem imaginar o que o aguardava. Assim que o viu, Elivaldino comentou com o entregador de gás: Tá vendo aquele cara na porta do prédio? Cobre o que falta pra ele, ele também esta morando conosco. Ao chegar là, sem pensar duas vezes o funcionário abordou o sujeito: Sr. Pediram que lhe cobrasse metade do valor do gás. Para não fazer feio na casa da namorada, satisfeito ou não, ele meteu a mão no bolso e custeou a despesa. Prometemos devolver pra ele o valor depois, coisa que ele espera até hoje rs. Difícil mesmo é visitar estagiários e sair sem pagar nada.
A jaca foi outro fator decisivo na visita. Como praticamente só quem comia jaca era Elivaldino e não tínhamos geladeira naquele tempo, àquela jaca enorme ficou aberta no chão por três dias e impregnou um cheiro forte pelo apartamento que mesmo depois de jogar fora o resto e lavar o piso, aquilo permanecia. Isso espanta mais visita do que a simpatia de colocar vassoura atrás de porta. Resultado, com o tratamento dados pelos anfitriões, não há visitante que aguente e nosso amigo pegou o caminho de volta para o sertão.
E esse cabra safado que é o Elivaldino ainda fica me ligando para que eu não esqueça de contar suas presepadas... rsrs.


Francisco Trajano 

sábado, 22 de junho de 2013

O episódio das Cuecas



Alguns episódios acontecidos durante a luta do estágio tenham sido eles dentro ou fora da empresa, eu acabei deixando de falar até pra não envolver nomes de pessoas sem a autorização das mesmas. Só que hoje recebi uma ligação de um dos “heróis” desse período bom de nossas vidas me pedindo que contasse alguns acontecimentos que fizeram partes desses dias e que renderiam boas postagens. A pessoa que me ligou foi Elivaldino Clementino, o mais levado dos cinco e conhecido de outras postagens. Durante a conversa ele inclusive falou que o nome dele podia aparecer em quantas postagens eu fizesse sem problema algum.

Então a pedido de meu amigo, vamos quebrar um pouco a cronologia dos fatos e voltar a época do pensionato da Rua Rui Barbosa. Estávamos lá os cinco. E num acordo feito com a proprietária, em dias alternados, cada um lavava sua roupa até pra não congestionar os varais que eram poucos e tinha que deixar espaço para os outros hóspedes também. Depois de alguns dias ela queria inclusive empatar de lavar roupa pra reduzir o consumo de água, ver se pode! E aí começa a queda de braço. De um lado a velha deixando de cumprir os acordos feitos quando foi pra gente entrar lá, do outro, não tínhamos muitas opções, o jeito era reclamar e tentando ficar mais alguns dias por alí.

E naquele dia de Elivaldino lavar as roupas dele veio à confusão. Após lavar todas as roupas sujas a noite quando chegava do trabalho, ele as deixou em baldes de molho (como de costume) e no dia seguinte antes de sair pra empresa, espremia e as deixava no varal para retirar no final da tarde quando chegasse do trabalho. Essas duas fases citadas foram concluídas com sucesso. Só que nesse dia, foi um daqueles “dias de Campina Grande”, pouco sol, chuva fina durante quase todo o dia e o filósofo Márcio dizia que se quisesse que chovesse era só sair sem guarda-chuvas – ô homem pessimista rs. Mas voltemos ao personagem principal de hoje. Quando chegamos da fábrica, fomos direto ao terraço dos fundos para discutir sobre os acontecimentos do dia no trabalho e veio à primeira percepção: A roupa de Elivaldino não estava mais no varal.

Chegando ao quarto, todas as roupas estavam em cima da cama. Pelo visto não era tão ruim assim, alguém guardou as roupas para ele. Foi engano quando pensamos ter sido algo bom. Quando foi guardar as roupas, ele viu que estavam molhadas ainda, pois foram tiradas antes de secar para dar espaço para outras pessoas. E não parava por aí. Já PUTO da vida e se preparando para ir tirar satisfação com a dona do pensionato, Elivaldino identifica várias cuecas de outro hóspede embaralhadas junto com sua roupa. A janela do nosso quarto ficava de frente com uma lanchonete bem famosa daquela rua, a hoje já extinta Coffee Cake e nesse horário de fim de tarde para a noite tinha um movimento considerável inclusive com uma fila de carros estacionados na lateral do pensionato. Sem pensar duas vezes, Elivaldino arremessou as cuecas pela janela. Foi bandeirola de toda cor se espalhando pela rua.

O filho da velha, um cara metido a playboy, vinha chegando nesse instante e pode acompanhar a chuva de cuecas que fora caindo sobre os carros e na rua. Esse deu um grito pela mãe e protestou dizendo: Tá vendo só as qualidades que a senhora arruma pra morar aqui? A velha como principal culpada no que chamados de: “O episódio das cuecas”, não teve outra alternativa se não ir catar as cuecas e procurar o verdadeiro dono posteriormente para não irritar mais um hospede! Seu “Biu” só ficava olhando da portaria enquanto fumava mais um cigarro.

Taí Elivaldino, o episódio das cuecas foi registrado. Depois estarei escrevendo mais alguns das sugestões feitas. Aceito mais sugestões!


Francisco Trajano

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Mergulhando fundo em uma ideia!



Nossa saída do pensionato não aconteceu de forma totalmente tranquila. Dentre outras coisas, saímos também porque muito do acordado quando fomos pra lá não estava mais sendo cumprido pela proprietária (aquele pensionato merece mais algumas postagens, rs. Depois vou pedir autorização a alguns heróis que alí conhecemos naqueles dias para contar mais algumas histórias de lá). Como precisávamos voltar a fortalecer a equipe diante das baixas recém-ocorridas, lembrei-me que precisava também me vingar da velha do pensionato. Encontrei a fórmula certa para juntar as duas coisas.

Em postagens anteriores, falei de Rodrigo, um cearense que cursava educação física na UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) e morava no pensionato. Quando fizemos amizade com ele, Rodrigo me falou da insatisfação com a moradia. De tudo que vinha sendo descumprido e que só não saía por que estava difícil arrumar um lugar compatível com a situação financeira atual. Ele continuava lá mais pelo atrativo do preço “de estudante”.

Em uma visita despretensiosa ao meu amigo em um fim de semana, fiz algumas contas com ele referente aos custos mensais para morar naquelas condições. Logo comecei a puxa-lo pra meu lado. Dei a ideia de que ele podia morar mais perto da faculdade. Falei de uma pequena cesta básica que recebíamos na empresa e poderíamos dividir sem problemas. Que eu estava já sendo contratado (e rezando pra acertar essa conversa que eu contava sempre que precisava animar alguém – rs) e dava pra gente se virar. Estava resolvido, Rodrigo ia deixar o pensionato e estava indo reforçar nosso time. Não podia ter aquisição melhor. Um cara batalhador, cheio de sonhos assim com nós, que chegou ali com as mesmas dificuldades e que agora era mais um a acreditar em meu projeto que sempre tinha como tema: Vai dar tudo certo.

Paralelo a isso, na empresa eu cobrava todos os dias a migração de estagiário para efetivo. Até que um dia o gerente me chamou na sala e me veio com a seguinte conversa: É, tem você e Márcio esperando contratação. Eu consegui apenas uma vaga. Para evitar que tenhamos problemas, acho melhor aguardar surgir outra vaga assim posso contratar os dois. Imediatamente eu entendi a jogada. Ele precisava muito dos dois e ficou pensando em contratar apenas um e o outro ficar desmotivado para continuar. Êpa, contrate um, seja ele qual for. E quer saber do mais, contrate Márcio que é mais agoniado. De todo jeito vai está melhorando a vida dos dois mesmo. O que não significa que eu vou diminuir minhas cobranças, amanhã bato em sua porta novamente para cobrar melhorias para mim. Bom, depois de muita conversa, minha ideia foi aceita e o gerente pediu que Márcio trouxesse a documentação no dia seguinte para o tão sonhado processo de contratação para o quadro efetivo.

Fazendo uma avaliação, estávamos com um saldo bem positivo. Roubei um hóspede do pensionado só pra me vingar, de tabela ainda reforcei a equipe com um cara gente fina. E pra fechar com chave de ouro, conseguimos uma contratação. Era hora de procurar o dono do prédio para pagar a diferença que prometi pra ele assim que a situação financeira melhorasse. O cara foi muito simpático conosco e não quis nada a mais pelo aluguel. Mas mantendo o foco ainda na redução de custo, encontrei um apartamento maior e por um preço menor. Era hora de sair da Praça Felix Araújo. Enquanto Rodrigo estava arrumando as coisas para se mudar, também arrumamos as nossas e levantamos acampamento. Destino a Rua Epitácio Pessoa onde recebemos o novo hóspede. Ô povo pra se mudar, ainda bem que não tinha nada além da mala, a mochila, nosso fogão de duas bocas e o gravador de um deck só. Bem vindo a casa Rodrigo, vida que segue. Você agora faz parte dos próximos capítulos dessa história.
Francisco Trajano

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Eu, Ceará e nós mesmos!



Ceará é como é conhecido Márcio Júnior. Com a saída dos outros estagiários, ele foi o último sobrevivente a me acompanhar na insistência de permanecer em Campina Grande e buscar um espaço para tal. Voltando aquela reunião mais que emergencial que começou na postagem anterior, confesso que eu estava apreensivo com tudo, só não podia demonstrar isso de forma nenhuma, se não, eu podia perder o último guerreiro. Tinha mais era que fazer que ele acreditasse que era possível e não me obrigasse a acreditar que era hora de parar de forma pior, na prática. Começamos com o seguinte diálogo:

_ Trajano, você ainda vai querer continuar com essa história de morar aqui? Só eu e você agora? Achando que tudo vai dar certo um dia? E quanto tempo vai demorar pra esse dia chegar?

_ Esse dia vai chegar e eu vou está aqui esperando e com você. Em quanto tempo? Num sei, quando chegar medimos. A palavra desistir não pertence ao meu vocabulário meu amigo, tem que haver uma saída, mas voltar pra casa agora eu não vou mesmo. Meu plano é lutar e mudar isso. Qual o seu? Voltar pra o sertão como fracassado e passar ajudar no roçado novamente? Levante a cabeça, vamos conseguir uma vaga depois do estágio, se não conseguir lá, vamos procurar em outra empresa e começar tudo de novo.

_ Mas não depende só de você querer ou não. Seu otimismo não vai pagar as contas no final do mês não. O aluguel vai já vencer de novo e só isso leva metade de nossa renda. A gente precisa comer também você lembra disso? Se já tava difícil e agora?

_ Sei que realmente não tá fácil. No entanto, voltar pra o sertão não pode ser a única alternativa. Eu preciso comer sim, nós precisamos. Mais preciso fazer isso aqui em Campina e vou fazer. Quanto ao meu otimismo, é ele que vai me fazer achar uma saída. Já estou pensando num plano aqui para permanecermos.

_ Você e seus planos. O que não posso é dizer a minha família no interior que tô aqui na pior. Que estudei pra vir passar fome fora de casa. Meu Deus se minha família sonha a situação que estamos. Num quero nem imaginar.

_ Espere, sem exageros. Fome ninguém tá passando, ainda não né? Rsrs. Vamos reverter o quadro. Quando a família saber, a minha também não vai nem pode saber, pelo menos por enquanto. A não ser num futuro bem distante quando tudo estiver resolvido. Afinal, acredito que tudo ficará bem e se tudo fosse certinho, que história teríamos pra contar? (Por sinal a alimentação desse blog só é farta porque passamos por isso viu Márcio?).

A primeira providência no dia seguinte foi explicar ao gerente da empresa a situação, a vontade de continuar e pedir que ele melhorasse financeiramente alguma coisa para um dos dois, afinal estávamos juntos nessa. E ainda avisei pra ele que eu cobraria isso todos os dias. Márcio ficava desconfiado em apostar no meu otimismo, mas de contrapartida, não fazia nada além de esperar que esse mesmo otimismo desse resultado pra nós dois. Tínhamos histórias parecidas, por isso eu acreditava que ele não desistira fácil como falou e me acompanharia sim até onde eu fosse.

Outra providência foi procurar o dono do prédio quando voltei da empresa a noite e dizer pra ele: Sr. Nossa permanência em Campina Grande na busca de um sonho de trabalhar e estudar está dependendo de você. Preciso que baixe o valor do aluguel por dois meses, é o tempo que lhe peço. E depois posso repor a diferença quando a empresa cumprir a promessa de efetivar-nos em no máximo 40 dias (claro que isso não era verdade, a empresa não prometeu nada, eu estava apostando todas a fichas, valia tudo). Bom, o proprietário ficou sensibilizado com minha história e concedeu um desconto de 30% no aluguel para o período que pedi. E se tinha que botar em prática o ditado de “matar um leão por dia”, o do dia eu já tinha conseguido. Márcio não acreditou quando contei o que consegui. Mais uma vitória. E vamos pra frente que a vida não para.

Mas ainda precisávamos reforçar esse time o quanto antes. E Como fazer isso? Eu já tinha uma ideia. Mais uma ideia, lá vem ele de novo! Calma Márcio, daqui a pouco eu te digo como fazer isso...

Francisco Trajano

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sonho em grupo sendo desfeito


O estagio transcorria, mais nada de efetivação na empresa. Quando estava próximo ao final do período de seis meses do contrato inicial de estágio, só se falava em renovar o estágio. Por problemas pessoais, Juliane anuncia sua saída da casa. A equipe começa a ser desfeita. Agora éramos apenas quatro para dividir todas as despesas e sonhos. A oportunidade de efetivação no mercado de trabalho estava difícil e agora a espera começa ficar mais dolorosa.
Após uma despedida simples e podemos dizer que triste, afinal, além de está perdendo uma colega de estágio, cada um viu seus planos ameaçados pela redução do grupo. Começamos a pensar em como manter o resto da equipe unida. Mas agora não era hora de desanimar. Chegando à rodoviária, com desculpas e abraços vimos Juliane embarcar de volta para Cajazeiras. A caminho de casa, já marcamos uma reunião na mesma noite, para discutir novos planos e reorganizar os dias futuros.
Pensando pelo lado bom, o apartamento só tinha dois quartos e um deles era ocupado por Juliane, enquanto sobrava um para os quatro homens. A divisão ficou melhor agora. Já a divisão dos custos mensais... Não sei nem como, mas apertamos um pouco o orçamento e passamos para a ponta do lápis todo e qualquer gasto da semana.
Quando pensamos que tudo estava mais calmo, eis que surgi mais uma novidade para ameaçar o futuro do grupo. Com a divulgação do resultado do vestibular da UFCG, Bruno Carolino foi aprovado para o primeiro período do curso de Letras (detalhe, para o Campus de Cajazeiras). Mais um companheiro começa a fazer as malas para voltar ao sertão na semana seguinte. Não podia ser diferente, com a saída de Bruno para a rodoviária, outra reunião foi marcada as pressas, dessa vez com uma pauta adicional. Além de reduzir os custos, tínhamos que cobrar da empresa o quanto antes a efetivação como técnico para tentar melhorar os proventos financeiros mensais.
Partimos os três com o mesmo pensamento para a empresa, cobrar melhorias. Com algumas especulações feitas a título de salário e perspectivas de melhorias, Elivaldino cobrou mudanças rápidas e de uma forma mais enérgica numa hora não muito boa no setor que estava estagiando. Pelo fato de não obter sucesso nas cobranças e ainda ser tratado de uma forma que considerou humilhante, ele resolveu colocar a CTPS em cima da mesa do seu superior direto e disse que não ficava mais nenhum dia na empresa. Elivaldino partiu no dia seguinte para tentar a sorte na capital João Pessoa. Deixando o fardamento para que eu entregasse tamanha foi à decepção perante o tratamento recebido.
Vida que segue. Se a situação já estava crítica, imaginem agora que o grupo se resumia a mim e Márcio Junior? Ele tinha os mesmo motivos que eu para continuar naquela luta, restava saber se tinha a mesma coragem. E se também sabia fazer mágicas para manter aluguel, água, luz, feira e demais gastos como os cinco faziam, só que agora eram só dois. Tinha que haver uma saída, já que voltar pra casa eu não contava como saída.
Agora a reunião apenas com duas cadeiras ocupadas era realmente mais que emergencial. Dava para insistir na ideia de continuar? Como? A conversa de menor plateia ia começar. Os dois, ainda estagiários, botamos a palavra futuro na mesa... E agora?



Francisco Trajano

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Mais desafios


Depois da “noitada” na boate Morron Café, quando conseguimos reunir todo mundo novamente no sábado pela manhã, bem vindos a realidade! Tínhamos que sair para comprar a mobília. Cada um com seu colchonete e os quartos já estavam ok. A cozinha só tinha o nome. Na sala, apenas nosso som (aquele gravador de um deck) e nossa coleção de fita cassete, uma de Raul Seixas, uma de sertanejo e outra de forró. 
E lá estávamos nós nas compras. Nossa primeira aquisição foi um fogão de 2 bocas e um botijão de gás. Isso depois de pechinchar muito na Rua João Pessoa. Como as coisas eram muito caras, deixamos as panelas para comprar no dia seguinte lá na famosíssima Feira da Prata. Sem panelas, sem almoço no sábado. Já meio que azuis de fome, descobrimos perto da nossa nova moradia, um trailer que vendia um sanduíche chamado Nordestão. Conhecido pelo seu tamanho, uma das propagandas era que, ninguém conseguia comer um desse sozinho. Acho que quando disseram isso, não contavam com nossa visita lá.
E no domingo cedinho, seguem os “heróis do estágio” para a Feira da Prata. Olhamos todo o movimento da feira. Tomamos caldo de cana e comemos aquele pastel com um sabor que só se acha na feira mesmo. Descobri que na Prata se achava de tudo, desde de celular a parafuso de cabo de serrote. Numa promoção, compramos as panelas, conchas e a cuscuzeira no mesmo lugar. Aproveitei para levar um feijão verde, assim seria mais fácil e rápido para cozinhar. Feira feita, voltamos ao apartamento para preparar o primeiro almoço pós mudança. E assim, tivemos o que só não chamamos de mesa farta, porque na verdade “mesa” não havia. Mas tinha feijão, arroz e carne assada. E alí, no chão da sala mesmo, almoçamos conversando e nos divertindo da própria situação.
Agora era dormir um pouco, e lavar roupa. Por que a segunda-feira estava já batendo a nossa porta e tínhamos que encarar as dúvidas e incertezas de um estágio. Caminhávamos já para o quinto mês, e nenhuma promessa concreta de efetivação para nenhum de nós. O medo maior era que algum deixasse o barco, aí automaticamente as despesas aumentariam para os que ficassem. Tentei encorajar sempre a todos até para minha própria sobrevivência em Campina Grande. Para minha falta de sorte, o que eu mais temia aconteceu... A equipe começou a ser desfeita...
E agora? Como permanecer com menos de algo que já era pouco? Quem deixaria a casa? Quem sobreviveria comigo? Já que desistir era uma palavra que eu rasguei e joguei fora quando saí do sertão para Campina.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A coisa ficou preta na Marrom!




Depois do insucesso no aluguel da casa (da postagem anterior) e passados mais alguns dias no pensionato, as coisas começaram a ficar um pouco diferente do contratado e chegamos a conclusão de que tínhamos que sair dali o quanto antes.

Com o auxílio de outro sertanejo (José Pires de Araújo) que estava a mais tempo na cidade, depois de alguns dias de busca, consegui alugar um apartamento na praça Felix Araújo. Em uma sexta-feira, quitamos a fatura com a proprietária e nos despedimos do pensionato levando conosco toda nossa mobília. Era tanta coisa que foi uma única viagem em um automóvel Gol de um amigo da empresa que nos fez essa gentileza. Além das malas, resumia-se a um garrafão de água mineral, um ventilador, dois colchonetes e um gravador de um deck com algumas fitas cassete.

Como inauguração da nova moradia, José Pires nos fez um convite: Tem um lugar aqui muito bom para curtir na sexta a noite. Já comecei a fazer julgamento olhando pra Elivaldino que já apresentava um pouco de reprovação apenas com os olhos. Após o amigo descrever as “maravilhas” do local, Bruno e Juliane se animaram. Márcio, se era pra sair na noite e tomar alguma coisa, tá dentro sem pestanejar. Eu e Elivaldino não éramos do contra, mas sim da cautela. E tivemos a mesma opinião: Isso num deve ser lugar de estagiário rs.

De tanto Pires (assim o chamávamos) insistir, concordamos meio que desconfiados e marcamos na casa dele a noite para irmos juntos a Boate Marrom Café, que ficava na cobertura de um prédio no centro da cidade. Pires falou que não havia lugar melhor pra ir. Que era muito animado lá e que tinha mulher demais. Bom, chegando ao famoso local, foi cobrada ainda embaixo a taxa de cinco reais antes de pegar o elevador. Entreolhamo-nos vendo um quarto do nosso dinheiro da noitada indo embora antes de entrar. Assim seguimos ansiosos e para cima. Quando entramos no local, além do garçom  tinha umas quatro pessoas. Pense numa animação. Ao ser interrogado, Pires disse que chegamos cedo e era assim mesmo, mais tarde ia ficar cheio, assim falou nosso guia de festa.

Ficamos mesmo foi observando as luzes da cidade. A festa estava tão animada que tiramos uma soneca ali mesmo no sofá que ficava próximo as janelas de vidro. Na primeira visita a uma boate, dormimos em pleno salão de festa. Depois de um bom cochilo, voltei a dar uma olhada no salão e vi que o movimento pouco tinha mudado. Sem muitas esperanças chamei Elivaldino para dar uma volta e beber alguma coisa. Não vimos a fartura de mulher que foi informada. Pedimos uma dose de uma bebida que veio em uma taça minúscula e com uma cereja dentro que se muito tivesse seria 50ml. Pagava tudo na saída, mas por curiosidade, perguntamos o preço da dose. Mais um susto. Somada a bebida minha e a dele, era quase o valor de um litro. E quanto ao movimento, chegaram mais algumas pessoas, na maioria casais já formados e preconceitos a parte, as pessoas que subiam sozinha não tinham aparência muito hétero e não eram a praia da gente. Nos vimos em um ambiente esquisito, com pessoas esquisitas e com os preços mais caros da cidade.

É, estava resolvido. Íamos embora. Os demais estavam lá, fingindo ou não, achando tudo ótimo e dançando uma música agitada e agora com pouca luz daquele globo giratório e colorido. Podiam até nos chamar de matuto, no entanto, eu e Elivaldino resolvemos sair daquele lugar. Eu não gostava nem dos forrós do sertão, agora alí numa boate... Ah invenção! Rs... Não, vamos embora mesmo e pronto. Descemos a rua Maciel Pinheiro mais de meia noite a procura de um moto taxi, quando conseguimos apenas um e tivemos que dividir. E assim chegamos em casa e prometemos não mais seguir nosso guia de festa.

No dia seguinte, estávamos nós e nosso garrafão de água mineral na cozinha vazia, para começar a nova etapa, agora num apartamento. Foi o jeito botar a fita cassete de Raul Seixas e rir um pouco da noite anterior.


Francisco Trajano