Depois do insucesso no aluguel da casa (da postagem anterior) e passados mais alguns dias no pensionato, as coisas começaram a ficar um pouco diferente do contratado e chegamos a conclusão de que tínhamos que sair dali o quanto antes.
Com o auxílio de outro sertanejo (José Pires de Araújo) que estava a mais tempo na cidade, depois de alguns dias de busca, consegui alugar um apartamento na praça Felix Araújo. Em uma sexta-feira, quitamos a fatura com a proprietária e nos despedimos do pensionato levando conosco toda nossa mobília. Era tanta coisa que foi uma única viagem em um automóvel Gol de um amigo da empresa que nos fez essa gentileza. Além das malas, resumia-se a um garrafão de água mineral, um ventilador, dois colchonetes e um gravador de um deck com algumas fitas cassete.
Como inauguração da nova moradia, José Pires nos fez um convite: Tem um lugar aqui muito bom para curtir na sexta a noite. Já comecei a fazer julgamento olhando pra Elivaldino que já apresentava um pouco de reprovação apenas com os olhos. Após o amigo descrever as “maravilhas” do local, Bruno e Juliane se animaram. Márcio, se era pra sair na noite e tomar alguma coisa, tá dentro sem pestanejar. Eu e Elivaldino não éramos do contra, mas sim da cautela. E tivemos a mesma opinião: Isso num deve ser lugar de estagiário rs.
De tanto Pires (assim o chamávamos) insistir, concordamos meio que desconfiados e marcamos na casa dele a noite para irmos juntos a Boate Marrom Café, que ficava na cobertura de um prédio no centro da cidade. Pires falou que não havia lugar melhor pra ir. Que era muito animado lá e que tinha mulher demais. Bom, chegando ao famoso local, foi cobrada ainda embaixo a taxa de cinco reais antes de pegar o elevador. Entreolhamo-nos vendo um quarto do nosso dinheiro da noitada indo embora antes de entrar. Assim seguimos ansiosos e para cima. Quando entramos no local, além do garçom tinha umas quatro pessoas. Pense numa animação. Ao ser interrogado, Pires disse que chegamos cedo e era assim mesmo, mais tarde ia ficar cheio, assim falou nosso guia de festa.
Ficamos mesmo foi observando as luzes da cidade. A festa estava tão animada que tiramos uma soneca ali mesmo no sofá que ficava próximo as janelas de vidro. Na primeira visita a uma boate, dormimos em pleno salão de festa. Depois de um bom cochilo, voltei a dar uma olhada no salão e vi que o movimento pouco tinha mudado. Sem muitas esperanças chamei Elivaldino para dar uma volta e beber alguma coisa. Não vimos a fartura de mulher que foi informada. Pedimos uma dose de uma bebida que veio em uma taça minúscula e com uma cereja dentro que se muito tivesse seria 50ml. Pagava tudo na saída, mas por curiosidade, perguntamos o preço da dose. Mais um susto. Somada a bebida minha e a dele, era quase o valor de um litro. E quanto ao movimento, chegaram mais algumas pessoas, na maioria casais já formados e preconceitos a parte, as pessoas que subiam sozinha não tinham aparência muito hétero e não eram a praia da gente. Nos vimos em um ambiente esquisito, com pessoas esquisitas e com os preços mais caros da cidade.
É, estava resolvido. Íamos embora. Os demais estavam lá, fingindo ou não, achando tudo ótimo e dançando uma música agitada e agora com pouca luz daquele globo giratório e colorido. Podiam até nos chamar de matuto, no entanto, eu e Elivaldino resolvemos sair daquele lugar. Eu não gostava nem dos forrós do sertão, agora alí numa boate... Ah invenção! Rs... Não, vamos embora mesmo e pronto. Descemos a rua Maciel Pinheiro mais de meia noite a procura de um moto taxi, quando conseguimos apenas um e tivemos que dividir. E assim chegamos em casa e prometemos não mais seguir nosso guia de festa.
No dia seguinte, estávamos nós e nosso garrafão de água mineral na cozinha vazia, para começar a nova etapa, agora num apartamento. Foi o jeito botar a fita cassete de Raul Seixas e rir um pouco da noite anterior.
Francisco Trajano

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