Nessa vivência no mercado de
trabalho, onde passamos mais tempo na empresa do que em nossa própria casa,
encontramos cada figura mais exótica que a outra e que nos dão subsídios para
contarmos boas histórias como a que lembrei agora. Conheci um cara que merecia
ser estudado. Um dos apelidos que mais chamavam esse nosso amigo era “Dick Vigarista”
(famoso personagem de um desenho animado que tentava levar vantagem em tudo). O
chamarei apenas de Dick nesse episódio, quem nos conhece vai saber bem de quem
estou falando e vai dar boas risadas. Vamos à matéria.
Comprei um som usado que tinha um pequeno defeito no
botão de volume, mas que o restante funcionava perfeitamente, assim me garantiu
a dona. Quando olhei o som, pensei comigo: Troco o potenciômetro do botão de volume
e estará tudo resolvido. Não sei se por maldade de quem me vendeu ou pura falta
de sorte minha, mas logo no segundo dia que estava usando, o som apresentou um
defeito intermitente no leitor óptico. Hora lia CD, hora não lia. Naquela
época, além de ser difícil ser encontrado um leitor compatível, o custo muitas
das vezes não compensava. Pensei em devolver, mas desisti da ideia, nunca “corri”
de um negócio, não seria dessa vez. Instalei o som no meu quarto e no dia que
ele bem queria, eu escutava em bom som meus poucos Cds. Quando não, ouvia
apenas rádio!
Numa tarde de sábado, Dick chegou ao apartamento e
começou a conversar com outro amigo que tínhamos em comum do trabalho. Enquanto
isso coloquei um CD e o som estava de bom humor, resolveu tocar. Dick chegou à porta
do quarto e elogiou o som. Lembrei que ele já havia aprontado comigo.
Imediatamente aumentei mais o volume pelo controle remoto e pensei comigo, hoje
ele me pagar pelos negócios não muito bem sucedidos que fez com todos da
equipe. Dick estava na minha mão e ia pagar pelo que fez. Enquanto ele falava
bem do som, cuidei em dizer que era um objeto de estimação justamente pela
qualidade. Não demorou muito e a proposta de negócio surgiu. Depois de muita insistência
dele e “resistência” minha, fechei negócio. Troquei num celular e ele ainda me
voltou o valor equivalente ao que eu tinha pagado no som.
Dois dias depois Dick veio reclamar dos defeitos do som e
eu aleguei que foram causados durante o transporte. Não me segurei por muito
tempo, depois contei a equipe na empresa que tinha me vingado por todos. Alguns
acabaram falando para o novo dono do som que ele havia sido enganado pelo
matuto do sertão. Ele não gostou muito, mas, negócio era negócio! Passaram-se
10 anos e sai da empresa. Até hoje quando relembro essa história com a própria vítima,
arrancamos boas risadas. E os contemporâneos da época dizem que uma das grandes
conquistas minhas na temporada que passei naquela organização foi ter alcançado
o feito de ser conhecido como o único a conseguir dar um “calote” em Dick
Vigarista... rs. Eita tempo bom. Foi mal Dick, mas eu precisava fazer aquilo.
Não pelo valor financeiro!
Francisco Trajano
