quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cuidado com o orelhão!




Em frente ao pensionato tinha um orelhão muito disputado à noite. E devido a essa concorrência para utilização, encontraram como alternativa outro que ficava na Rua Getúlio Vargas em frete a Universidade Estadual de Administração e Contabilidade. Nos dias que não tinha aula naquela instituição, um deserto se formava naquela área e já não era mais confiável ficar de bobeira naquelas imediações à noite. Pensando nisso, em uma das reuniões noturnas no terraço dos fundos do pensionato, alertei aos companheiros sobre circular por ali depois das vinte e uma horas. Eles disseram que eu era muito matuto e morria de medo da cidade grande, achava que se saísse teria que acontecer alguma coisa. Fiz apenas o comentário e seguimos com as demais pautas da noite.

Encerrado o encontro noturno, partimos para a disputa do orelhão mais próximo (já que celular era algo meio que inimaginável para o momento, sem contar as tarifas altíssimas). Não sei de onde Juliane tirava assunto para conversar no mínimo trinta minutos todo santo dia com a mãe! Depois da mãe, vinha a ligação para o namorado e essa sim demorava. Eu e Bruno ficávamos na média dos dez minutos para saber dos familiares como estavam. Tida como ligações “normais” e nem era todo dia. Márcio tinha verdadeira aversão ao uso do tal aparelho. Acontecesse o que acontecesse na família dele (que por sinal não era pequena) ele nunca passava mais de dois minutos na linha, isso uma vez por semana e olhe lá. Em resumo, se tava todo mundo vivo, tava ótimo e fim de papo. E fechava sempre com a mesma frase: “Aqui tá bom”. Rs.

Agora se tinha uma coisa que Elivaldino não podia reclamar de Juliane era da demora no telefone, nisso ele tava de igual pra igual com ela. Por causa de um namoro com uma sertaneja, ele ficava pendurado todo dia e assim ficava meio que empatado em horas de uso. E naquela noite, buscando uma maior “privacidade” para travar mais uma das suas intermináveis conversas com a musa, Elivaldino saiu da fila e foi para o já falado orelhão da Getúlio Vargas. Ficamos aguardando nossa vez ali mesmo, afinal já passava das vinte e uma horas e eu como matuto que era, tinha medo. Como disseram eles.

Depois de demorar muito, o que era normal em suas ligações, mas tava passando um pouco do esperado. Nós já estávamos preocupados com Elivaldino quando ele apareceu mais branco que uma vela e meio desconfiado como cachorro que comeu sabão (assim dizia minha vó). É que ao encerrar as conversas, mesmo antes de deixar o orelhão, ele foi abordado por dois menores, que munidos de uma faca, faziam “seu trabalho” por ali. Como ele estava sem dinheiro, levaram sua sandália e deram uns empurrões nele. Ainda quiseram levar a bermuda também, mas ele, como um bom doido que sempre foi (rs) disse que podia furar, mas sem roupa ele não ficaria no meio da rua. Por sorte, “os caras” viram que ele era doido mesmo o deixaram ir sem levar e sem fazer mais nada. Depois de ver uma lâmina bem próxima a sua barriga, ele teve que dar o braço a torcer e concordar comigo que ali era realmente perigoso para rondar a noite.

 

Francisco Trajano

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Desbravando a Praça da Bandeira


Em respeito a quem acompanha minhas postagens, peço desculpas pelo tempo que passei sem postar nada. Inúmeros motivos (de ordem pessoal) impediram. mas estamos de volta e prometendo desde já voltar em um espaço de tempo menor. Obrigado! A aventura continua. rs.


E o pensionato da estreita Rua Rui Barbosa passou a ser nosso novo endereço. Durante a semana, o lugar onde apenas dormíamos. Acordávamos cedo e depois de uma caminhada curta, ficávamos a esperar o ônibus para um percurso de aproximadamente 30 minutos até a empresa. Lá no trabalho, tomávamos café e almoçávamos. No final da tarde, cansados daquela novidade do ambiente fabril, fazíamos o caminho de volta muitas vezes dormindo no ônibus.

Em um terraço grande nos fundo do pensionato, depois do jantar, a conversa era regada a temas diversos. Desde acontecimentos diários no trabalho a assuntos mais polêmicos como futebol, relacionamentos (para quem os tinham), família, religião. Falando em religião, Tinha gente no grupo que não sabia para que aquele negócio de reza (rsrs) ...de agradecimentos ... rs  ...mas acabava cedendo em nome de uma certa união que ainda estava bem acentuada entre todos. Algumas vezes o tema discutido acabava sendo quebrado pelo som de uma bendita fita cassete de Beto Barbosa que um hóspede chato insistia em escuta-la diariamente em um som que ficava no mesmo terraço.

Aos pouco começaram a se soltar. A noite já desciam alguns a pé até o hotel onde ficamos anteriormente apenas para conversar com Sr. Chico, o funcionário divertido que sempre tinha uma piada nova para contar ou um causo interessante. Comecei a orientar os meninos a não ficar de bobeira na rua e logo surgiu um apelido de matuto que tinha medo de andar na cidade grande. Alguns dias depois, me livrei de situações não muito confortáveis justamente por ser matuto (o que conto em postagens seguintes).

E quando as andanças foram aumentando, já íamos a Praça da Bandeira a noite olhar o movimento, ler manchetes de jornal nas bancas e olhar a invasão de pombos daquele lugar. E foi na praça que descobrimos um sertanejo que por ali vendia lanches há alguns anos e nas conversas, vimos que ele era “lá de nós”. Galego, como era chamado era uma simpatia e logo passou a chamar todos nós de “Cajazeiras” como me chama até hoje quando o encontro. Por um preço bem atrativo, o “salsichão” substituiu o jantar algumas vezes, regado sempre a boas conversas e risadas nos bancos da praça. Mas sempre lembrando de voltar ao pensionato as nove da noite. No retorno, uma paradinha rápida em um orelhão para dar notícias em casa, dizer que tava tubo bem, mesmo quando não estava tão bem assim, o importante na verdade era tranquilizar mamãe.

Chegando de volta a moradia nova, encontrávamos Seu Bíu (como chamávamos) no portão e pelo seu: Boa noite - era feito a denuncia de que ele já tinha esquentado o frio com a famosa branquinha. Gente muito boa Seu Bíu. Acompanhando o futebol das quartas-feiras a noite pela TV da sala, começamos a puxar conversa e descobrir figura gente fina que se escondia por traz daquela cara fechada de Rodrigo que falamos em postagem anterior. Ele estava ali mais ou menos na mesma situação que a nossa, apostando as fichas em um sonho de terminar um curso superior e conseguir um trabalho. Vindo apenas de mais longe ainda, do interior do estado do Ceará. O Skaitista era mais sociável. Charlistron (nem sei se escreve assim) gostava mais de conversar e ao mesmo tempo era mais esquisito com suas histórias de aventuras. Aos poucos fomos nos enturmando com a galera do pensionato e descobrindo a verdadeira face do ambiente.

E quanto ao orelhão da Rua Getúlio Vargas, o matuto aqui avisou que não era lugar de ficar sozinho à noite, ninguém deu ouvidos e deu no que deu. Mas isso é assunto para uma nova postagem. Espero que num espaço de tempo menos que a ultima...

Francisco Trajano