Em
frente ao pensionato tinha um orelhão muito disputado à noite. E devido a essa concorrência
para utilização, encontraram como alternativa outro que ficava na Rua Getúlio
Vargas em frete a Universidade Estadual de Administração e Contabilidade. Nos
dias que não tinha aula naquela instituição, um deserto se formava naquela área
e já não era mais confiável ficar de bobeira naquelas imediações à noite.
Pensando nisso, em uma das reuniões noturnas no terraço dos fundos do
pensionato, alertei aos companheiros sobre circular por ali depois das vinte e
uma horas. Eles disseram que eu era muito matuto e morria de medo da cidade
grande, achava que se saísse teria que acontecer alguma coisa. Fiz apenas o
comentário e seguimos com as demais pautas da noite.
Encerrado
o encontro noturno, partimos para a disputa do orelhão mais próximo (já que celular era algo
meio que inimaginável para o momento, sem contar as tarifas altíssimas). Não
sei de onde Juliane tirava assunto para conversar no mínimo trinta minutos todo
santo dia com a mãe! Depois da mãe, vinha a ligação para o namorado e essa sim
demorava. Eu e Bruno ficávamos na média dos dez minutos para saber dos
familiares como estavam. Tida como ligações “normais” e nem era todo dia.
Márcio tinha verdadeira aversão ao uso do tal aparelho. Acontecesse o que
acontecesse na família dele (que por sinal não era pequena) ele nunca passava
mais de dois minutos na linha, isso uma vez por semana e olhe lá. Em resumo, se tava todo mundo vivo, tava ótimo e
fim de papo. E fechava sempre com a mesma frase: “Aqui tá bom”. Rs.
Agora
se tinha uma coisa que Elivaldino não podia reclamar de Juliane era da demora
no telefone, nisso ele tava de igual pra igual com ela. Por causa de um namoro com uma
sertaneja, ele ficava pendurado todo dia e assim ficava meio que empatado em
horas de uso. E naquela noite, buscando uma maior “privacidade” para travar
mais uma das suas intermináveis conversas com a musa, Elivaldino saiu da fila e
foi para o já falado orelhão da Getúlio Vargas. Ficamos aguardando nossa vez ali
mesmo, afinal já passava das vinte e uma horas e eu como matuto que era, tinha
medo. Como disseram eles.
Depois
de demorar muito, o que era normal em suas ligações, mas tava passando um pouco do esperado. Nós já estávamos preocupados
com Elivaldino quando ele apareceu mais branco que uma vela e meio desconfiado
como cachorro que comeu sabão (assim dizia minha vó). É que ao encerrar as conversas,
mesmo antes de deixar o orelhão, ele foi abordado por dois menores, que munidos
de uma faca, faziam “seu trabalho” por ali. Como ele estava sem dinheiro,
levaram sua sandália e deram uns empurrões nele. Ainda quiseram levar a bermuda
também, mas ele, como um bom doido que sempre foi (rs) disse que podia furar,
mas sem roupa ele não ficaria no meio da rua. Por sorte, “os caras” viram que
ele era doido mesmo o deixaram ir sem levar e sem fazer mais nada. Depois de ver uma lâmina
bem próxima a sua barriga, ele teve que dar o braço a torcer e concordar comigo
que ali era realmente perigoso para rondar a noite.
Francisco Trajano
