terça-feira, 2 de julho de 2013

Homem do sertão, homem de palavra



Mas antes de falar da nova morada na Rua Epitácio Pessoa, preciso contar como cheguei a esse apartamento e a negociação para o aluguel.

E depois de alguns contatos e indicações, me preparei para ir conversar com o senhor dono do prédio que tinha o apartamento disponível. Antes de ir, um amigo me avisou: O velho lá é ignorante, sabe seu Lunga? Pronto. É parecido. Depois de pensar um pouco, imaginei comigo mesmo, o máximo que ele pode dizer é um NÃO! Mais nada. Pensando assim, segui ao encontro do recomendado locador. Chegando ao comercio do mesmo, encontrei um velho com uma aparência de “casca-grossa”. Fui direto enfrenta-lo:

- Bom dia Seu Zé, eu sou o rapaz que está interessado em alugar o apartamento disponível que o senhor tem.

- Bom dia, já me falaram de você. Você é de onde? E quantas pessoas vem morar aí além de você?

- Eu venho do sertão, de uma cidade chamada Nazarezinho, perto de Sousa, Cajazeiras, aquele mundo alí. O Sr. Sabe onde fica? E pra cá vem eu e mais dois amigos. Esses aqui são Rodrigo e Márcio.

- Saber direito onde fica num sei, mas se é do sertão, lá tem fama dos cabras ser direito, honesto e trabalhador. Assim, espero que você seja também. Tão fazendo o que na cidade?

- Viemos trabalhar e quando as coisas se estabilizarem mais pretendemos estudar por aqui também. Estamos numa empresa têxtil fazendo um estagio na área técnica. Estamos na luta para mudar a situação atual de vida.

- Gostei do seu jeito, você será o responsável pela equipe. Tá aqui a chave, o apartamento é o 101 no primeiro andar. Vão logo lá dar uma olhada e depois acertamos o resto. A água e energia já estão inclusos no valor cobrado do aluguel.

Estranhamos a atitude de mandar olhar logo assim de cara, mas como ele deu um voto de confiança por sermos do sertão, seguimos para ver o apartamento. Eu, Márcio e Rodrigo analisamos o imóvel e gostamos muito. Tanto pelo espaço físico, preço e pela proximidade do centro da cidade. Só faltava agora fechar o negócio. Desci curioso para saber as exigências que o proprietário faria para isso. Assim que voltei ele perguntou o que achamos e falei o quanto ficamos interessados. Agora queria saber dele quais eram os pré-requisitos:

- O senhor exige que tenha fiador (isso porque em outros casos pediram)?

- Fiador aqui é sua palavra. Se num pagar, boto pra fora no outro dia e estamos resolvidos. Aqui num tem esse negócio não. Se ver que vai atrasar, todo mundo tem problema eu sei. Mas num vá dar uma de doido e passar na minha frente sem dar nenhuma satisfação não, se não boto pra fora do mesmo jeito. Agora se avisar, é conversando que se entende.

- E o pagamento como é?

- O normal de todo aluguel né? Paga a primeira hoje, se muda pra cá amanhã e a cada 30 dias eu quero o dinheiro. Na saída quero tudo limpinho como entreguei.

- Precisa assinar alguma coisa?

- Não, como falei o documento aqui é a palavra.

- Tudo bem seu Zé, estamos acertados então. Mais tarde pegamos a chave, pagar o primeiro mês e vamos fazer a mudança amanhã logo cedo.

- Só mais uma coisa: Temos outros vizinhos aí, lembrem-se disso. Portanto, nada de festinhas a noite toda com som alto. Onze da noite baixa o som para não incomodar e não comam ninguém na escada tá certo? Palavras de Seu Zé!

- Tá certo seu Zé (não teve como controlar o riso nessa hora, mais o velho continuou sério). Mais tarde estaremos aí para lavar o apartamento.

Com toda desgraça que falaram, a conversa com o velho foi tranquila e até mesmo divertida. Eu agora estava indo dividir os sonhos e as contas com dois cearenses. Um do Crato e outro de Aurora. Vamos ver no que é que dar!

 
Francisco Trajano

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