Ceará é como é conhecido Márcio
Júnior. Com a saída dos outros estagiários, ele foi o último sobrevivente a me acompanhar na insistência de permanecer em
Campina Grande e buscar um espaço para tal. Voltando aquela reunião mais que
emergencial que começou na postagem anterior, confesso que eu estava apreensivo
com tudo, só não podia demonstrar isso de forma nenhuma, se não, eu podia
perder o último guerreiro. Tinha mais era que fazer que ele acreditasse que era
possível e não me obrigasse a acreditar que era hora de parar de forma pior, na
prática. Começamos com o seguinte diálogo:
_ Trajano, você ainda vai querer
continuar com essa história de morar aqui? Só eu e você agora? Achando que tudo
vai dar certo um dia? E quanto tempo vai demorar pra esse dia chegar?
_ Esse dia vai chegar e eu vou está
aqui esperando e com você. Em quanto tempo? Num sei, quando chegar medimos. A
palavra desistir não pertence ao meu vocabulário meu amigo, tem que haver uma
saída, mas voltar pra casa agora eu não vou mesmo. Meu plano é lutar e mudar
isso. Qual o seu? Voltar pra o sertão como fracassado e passar ajudar no roçado
novamente? Levante a cabeça, vamos conseguir uma vaga depois do estágio, se não
conseguir lá, vamos procurar em outra empresa e começar tudo de novo.
_ Mas não depende só de você querer
ou não. Seu otimismo não vai pagar as contas no final do mês não. O aluguel vai
já vencer de novo e só isso leva metade de nossa renda. A gente precisa comer
também você lembra disso? Se já tava difícil e agora?
_ Sei que realmente não tá fácil. No
entanto, voltar pra o sertão não pode ser a única alternativa. Eu preciso comer
sim, nós precisamos. Mais preciso fazer isso aqui em Campina e vou fazer.
Quanto ao meu otimismo, é ele que vai me fazer achar uma saída. Já estou
pensando num plano aqui para permanecermos.
_ Você e seus planos. O que não posso
é dizer a minha família no interior que tô aqui na pior. Que estudei pra vir
passar fome fora de casa. Meu Deus se minha família sonha a situação que
estamos. Num quero nem imaginar.
_ Espere, sem exageros. Fome ninguém
tá passando, ainda não né? Rsrs. Vamos reverter o quadro. Quando a família
saber, a minha também não vai nem pode saber, pelo menos por enquanto. A não ser num futuro bem
distante quando tudo estiver resolvido. Afinal, acredito que tudo ficará bem e se tudo fosse
certinho, que história teríamos pra contar? (Por sinal a alimentação desse blog
só é farta porque passamos por isso viu Márcio?).
A primeira providência no dia
seguinte foi explicar ao gerente da empresa a situação, a vontade de continuar
e pedir que ele melhorasse financeiramente alguma coisa para um dos dois,
afinal estávamos juntos nessa. E ainda avisei pra ele que eu cobraria isso
todos os dias. Márcio ficava desconfiado em apostar no meu otimismo, mas de
contrapartida, não fazia nada além de esperar que esse mesmo otimismo desse resultado
pra nós dois. Tínhamos histórias parecidas, por isso eu acreditava que ele não
desistira fácil como falou e me acompanharia sim até onde eu fosse.
Outra providência foi procurar o dono
do prédio quando voltei da empresa a noite e dizer pra ele: Sr. Nossa permanência
em Campina Grande na busca de um sonho de trabalhar e estudar está dependendo
de você. Preciso que baixe o valor do aluguel por dois meses, é o tempo que lhe
peço. E depois posso repor a diferença quando a empresa cumprir a promessa de
efetivar-nos em no máximo 40 dias (claro que isso não era verdade, a empresa
não prometeu nada, eu estava apostando todas a fichas, valia tudo). Bom, o
proprietário ficou sensibilizado com minha história e concedeu um desconto de
30% no aluguel para o período que pedi. E se tinha que botar em prática o
ditado de “matar um leão por dia”, o do dia eu já tinha conseguido. Márcio não
acreditou quando contei o que consegui. Mais uma vitória. E vamos pra frente
que a vida não para.
Mas ainda precisávamos reforçar esse
time o quanto antes. E Como fazer isso? Eu já tinha uma ideia. Mais uma ideia,
lá vem ele de novo! Calma Márcio, daqui a pouco eu te digo como fazer isso...
Francisco Trajano
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