terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Corte de cabelo



Com poucas opções de lazer no final de semana, vez por outra jogávamos sinuca como uma das alternativas restantes. Tinha um funcionário da empresa que nos levava a uma sinuca que ele conhecia. Chamarei aqui apenas de “irmão”, fazendo menção a um tratamento usado por seguidores de determinadas igrejas, já que o mesmo se dizia fazer parte de uma (nada contra). Mesmo assim, não era todo fim de semana que dava pra jogar. Tinha que lavar a roupa, fazer comida e a faxina geral no apartamento.

Em um sábado pela manha, o Irmão chegou nos chamando para jogar e eu não aceitei. Falei que além de todas as tarefas eu ainda precisaria ir ao cabelereiro, levando em consideração a necessidade que se fazia visível rs. Sem ter o que fazer, o amigo disse que aguardaria a conclusão das tarefas e me daria uma carona de moto até o cabelereiro, depois que cortasse o cabelo eu poderia jogar um pouco com ele. Ficou por alí de bobeira e acabou esperando o almoço.

Filada a “bóia”, ele saiu comigo de moto para o salão que eu costumava ir. Este desviou a rota e disse que me levaria a uma profissional amiga dele que prestava o mesmo serviço. Aos poucos fui entendendo as verdadeiras intenções do safado. Conhecido como o cara que aplicava pra cima de tudo que era mulher, ele tinha um certo interesse na cabelereira, na qual me levou. Percebi isso nas primeiras conversas ao chegar ao local. Esse meu “amigo” também trabalhava de mototaxista e vendo uma cliente falando que precisava chegar rápido em casa, já mudou o foco para outro rabo de saia. Deixou-me esperando a vez no salão e se mandou com uma cliente.

Até ai tudo bem. Quando chegou minha vez de ser atendido, sentei na cadeira, a atendente colocou a camisa de proteção (que evita o contato com o cabelo cortado) e começou organizar o equipamento a ser usado. Com a máquina de corte na mão, ela então me perguntou: Número 2 ou 3? Acostumado com a outra cabelereira, respondi apenas: 2! Esse número era o ajuste da altura do corte que a máquina fazia, que era usada nas laterais e a parte de cima era feita com a tesoura. A aprendiz ajustou o acessório da máquina e começou fazendo um “buraco” começando bem no meio de minha cabeça.

Quando olhei para o espelho e vi a situação, me desesperei na hora. Fiquei meio estático e pensando comigo onde iria me esconder pelos próximos dias. Ia perder o emprego, tinha que adiar a viagem a casa de minha mãe no sertão. Como reencontrar meus companheiros, eles iam zoar bem pouquinho de mim... Bom, exageros de pensamentos a parte, veio a prática. Eu gritei aquela mulher, chamei-a de BURRA, que não sabia fazer nada, porque estava alí... E ela com as mão tremulas e sem conseguir falar direito, olhava pra mim com aqueles olhos enormes de medo e disse: Mas não foi o senhor que falou?

- Cale a boca!

- E agora? O que faço?

- Passe a máquina com o número 2 agora em toda a minha cabeça (não acredito que eu tava dizendo aquilo, mas era a única saída). Consiga um boné pra mim e se não quiser que as coisas piorem pra você, NÃO ME FALE EM PAGAMENTO! Você está me ouvindo?

Ela apenas balançou a cabeça que sim e concluiu o serviço, a MER... que fez. Alguns minutos depois chegou o irmão e foi me deixar em casa rindo o tempo todo de minha cara.

Mas quando eu pensei que tinha acontecido de tudo naquele sábado, me enganei e muito. O fim de semana estava apenas começando...

 

Francisco Trajano


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