terça-feira, 10 de abril de 2012

Saudosismo meu x Modernismo delas


Retomando aos meus oito anos, idade que tem Sarah (minha filha mais velha), faço um paralelo daqueles dias com o que ela vive hoje. Em pouco tempo, afinal não estou tão velho assim (rs), as diferenças são muitas e consigo ver o quanto as coisas melhoraram. Se não fugisse do padrão de comportamento exigido durante o dia, eu tinha como recompensa a liberdade de curtir um momento de lazer: assistir a novela das sete na casa de um vizinho de melhores poses que tinha um daqueles aparelhos de TV enorme, em preto e branco, que mais parecia um baú de madeira. TV colorida era coisa muito rara ainda. Isabelle, minha filha de quatro anos, fica tentando imaginar se realmente houve uma época em que se via tudo em preto e branco nas TV’s. Elas não fazem a menor ideia do que era sair de casa rezando pra TV do vizinho está no canal que passava a novela. E olhe que as opções de canais disponíveis eram apenas duas e se já tinha inventado a parabólica, não tinha chegado por lá ainda. Estou falando de Nazarezinho em 1987.
Quando não ia ver TV na casa de algum vizinho, a única opção era um motorádio, que pelo nome assim, muitos nem sabe o que é. Modelo de rádio muito conhecido daquela época e que sintonizava apenas a frequência AM. Como era a pilha, tinha limitações no uso, já que não podíamos comprar sempre uma recarga. Eu escutava música, jornal e o futebol, na rádio Difusoura de Cajazeiras, que funcionava como a rede globo do sertão (assim ouvi de um locutor falar, posteriormente quando um dia visitei a rádio). Hoje quando estou vendo um telejornal na sala e minha esposa está assistindo um filme no quarto do casal, Sarah e Isabelle de pose de um controle remoto, estão escolhendo a programação deitadas na cama em seu quarto.
Durante o dia, se não tivesse ajudando em tarefas domésticas, tava lendo alguma coisa ou estudando, já que ficar de bobeira na rua era “coisa de vagabundo”. Se tivesse um trabalho da escola, ia até a biblioteca municipal fazer pesquisas em livros, dicionários, etc. Sarah já conhece o Google, joguinhos on-line e já fica impaciente quando uma página da web demora mais de quinze segundos para carregar. Isabelle já exercita as vogais e consoantes no teclado de meu notebook, dizendo que acha bem melhor do que em folhas de papel. Elas também já acham meu note ultrapassado e falam daqueles “negocinhos legais” que bastam puxar a imagem com o dedo (tela touch screen) que veem nos tablets. Preciso me atualizar.
Elas ficam abismadas e acham um absurdo quando falo que dormia as 20:30, acordava as 05:30, e juram ser mentira que na idade delas eu não sabia o que era iogurte, achocolatado e tantas outras guloseimas dos dias de hoje. Que rapadura era a sobremesa mais usada e que carne, nem sempre estava presente na mesa nas refeições.
Quando completei 13 anos, passei pela magia de ouvir pela primeira vez, a voz de alguém tão distante através de um telefone fixo no posto telefônico que atendia toda a cidade. Foi algo indescritível para mim. Já Sarah, quando quer falar com sua avó paterna em Nazarezinho, ou mesmo com a avó materna do outro lado da rua, usa seu próprio celular. Vez por outra ainda chega pra mim com a seguinte cobrança: Coloque créditos no meu telefone que não posso ficar sem ter como ligar. Eu mereço isso.. rs. Ô mundo pra dar voltas, ô vida boa.
Francisco Trajano

2 comentários:

  1. Adorei o texto, e apesar de só ter 23 anos também fiquei saudosa rs.

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  2. Muito bem dito, Trajano! Tudo verdade e contado de uma forma que só você sabe formatar!!

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