
Retomando aos
meus oito anos, idade que tem Sarah (minha filha mais velha), faço um paralelo
daqueles dias com o que ela vive hoje. Em pouco tempo, afinal não estou tão
velho assim (rs), as diferenças são muitas e consigo ver o quanto as coisas
melhoraram. Se não fugisse do padrão de comportamento exigido durante o dia, eu
tinha como recompensa a liberdade de curtir um momento de lazer: assistir a
novela das sete na casa de um vizinho de melhores poses que tinha um daqueles
aparelhos de TV enorme, em preto e branco, que mais parecia um baú de madeira. TV
colorida era coisa muito rara ainda. Isabelle, minha filha de quatro anos, fica
tentando imaginar se realmente houve uma época em que se via tudo em preto e
branco nas TV’s. Elas não fazem a menor ideia do que era sair de casa rezando
pra TV do vizinho está no canal que passava a novela. E olhe que as opções de
canais disponíveis eram apenas duas e se já tinha inventado a parabólica, não
tinha chegado por lá ainda. Estou falando de Nazarezinho em 1987.
Quando não ia
ver TV na casa de algum vizinho, a única opção era um motorádio, que pelo nome
assim, muitos nem sabe o que é. Modelo de rádio muito conhecido daquela época e
que sintonizava apenas a frequência AM. Como era a pilha, tinha limitações no
uso, já que não podíamos comprar sempre uma recarga. Eu escutava música, jornal
e o futebol, na rádio Difusoura de Cajazeiras, que funcionava como a rede globo
do sertão (assim ouvi de um locutor falar, posteriormente quando um dia visitei
a rádio). Hoje quando estou vendo um telejornal na sala e minha esposa está assistindo
um filme no quarto do casal, Sarah e Isabelle de pose de um controle remoto,
estão escolhendo a programação deitadas na cama em seu quarto.
Durante o dia, se não tivesse ajudando em tarefas domésticas, tava
lendo alguma coisa ou estudando, já que ficar de bobeira na rua era “coisa de
vagabundo”. Se tivesse um trabalho da escola, ia até a biblioteca municipal
fazer pesquisas em livros, dicionários, etc. Sarah já conhece o Google,
joguinhos on-line e já fica impaciente quando uma página da web demora mais de
quinze segundos para carregar. Isabelle já exercita as vogais e consoantes no
teclado de meu notebook, dizendo que acha bem melhor do que em folhas de papel.
Elas também já acham meu note ultrapassado e falam daqueles “negocinhos legais”
que bastam puxar a imagem com o dedo (tela touch screen) que veem nos tablets.
Preciso me atualizar.
Elas ficam abismadas e acham um absurdo quando falo que dormia as
20:30, acordava as 05:30, e juram ser mentira que na idade delas eu não sabia o
que era iogurte, achocolatado e tantas outras guloseimas dos dias de hoje. Que rapadura
era a sobremesa mais usada e que carne, nem sempre estava presente na mesa nas
refeições.
Quando completei 13 anos, passei pela magia de ouvir pela primeira
vez, a voz de alguém tão distante através de um telefone fixo no posto telefônico
que atendia toda a cidade. Foi algo indescritível para mim. Já Sarah, quando
quer falar com sua avó paterna em Nazarezinho, ou mesmo com a avó materna do
outro lado da rua, usa seu próprio celular. Vez por outra ainda chega pra mim
com a seguinte cobrança: Coloque créditos no meu telefone que não posso ficar
sem ter como ligar. Eu mereço isso.. rs. Ô mundo pra dar voltas, ô vida boa.
Francisco Trajano

Adorei o texto, e apesar de só ter 23 anos também fiquei saudosa rs.
ResponderExcluirMuito bem dito, Trajano! Tudo verdade e contado de uma forma que só você sabe formatar!!
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