domingo, 6 de maio de 2012

O poder da propaganda


Observando as propagandas e ouvindo falar do quanto era caro o investimento feito com estas, eu ficava perguntando se realmente valia a pena e mais, se surtia o efeito todos que falavam. Em meio as minhas dúvidas, vivi uma situação na qual acabei descobrindo o verdadeiro poder da propaganda.

Tendo eu concluído o curso de Técnico de nível médio em Eletromecânica no IFPB de Cajazeiras, naquele momento Escola Técnica Federal da Paraíba, vim para Campina Grande em 1999 e comecei fazer um estágio na empresa Coteminas. Transcorreram alguns meses de estágio e a empresa promoveu os jogos internos com algumas modalidades esportivas para seus colaboradores. Dentre as modalidades oferecidas, o xadrez. Eu havia aprendido, como diz no popular “mexer as peças” a pouco tempo, mas até por uma questão de melhor integração com os demais colaboradores, me inscrevi no campeonato. Com poucos inscritos, foram definidas duas chaves e os dois que melhor pontuassem, um em cada chave, se enfrentariam numa final, assim rezava o regulamento.

Veio um amigo de Cajazeiras fazer estágio na minha época que era muito gaiato. O sujeito chamava-se Elivaldino. Quando comentei com ele da inscrição nos jogos ele me disse – se prepare, a partir de amanha vou fazer seu nome no xadrez e você vai se dar bem nas disputas. No dia seguinte ele começou a falar nos quatro cantos da empresa que eu era o melhor jogador de xadrez que ele conhecia. Fez questão de conhecer os oponentes que me enfrentariam na chave e começou fazer pressão psicológica nos caras. No setor de trabalho, nos horários de almoço, o que o gaiato espalhava era – Nos jogos que participou, raramente Trajano ficou em segundo, massacra seus adversários em poucos minutos. Eu ainda reclamei, tentei  negar tudo, mas a fama tava espalhada e quanto mais eu dizia que não sabia jogar direito, mas eles falavam – É, todos dizem isso.


E assim começou o campeonato. O primeiro adversário era mais ou menos do meu nível, então passei por ele com alguns golpes de sorte também, já que o cara veio muito preocupado com o tempo e não jogava muito bem essa é a verdade. Para o segundo jogo da chave, meu personal marketeiro, arrasou com a autoestima do pobre do adversário que veio com medo, muito preocupado e já se achando derrotado, até quando eu dava erradas clássicas de um aprendiz, ele achava que era uma armadilha para ferrá-lo na próxima jogada, assim, ganhei a segunda partida. A fama do demolidor do xadrez estava tão grande, que o terceiro jogo fiquei com a pontuação pela ausência do oponente. Resultado, fui o primeiro da chave e fiquei a espera do vencedor da chave 2 para a grande final. Aí foi o que Elivaldino queria, começou a dizer que não tinha pra ninguém, eu seria o campeão e que ia humilhar o cara na final.

Marcada a partida final, tinha como adversário Daniel Regis, um jogador conhecido na empresa. quando me conheceu, Daniel falou: Você é o grande Trajano, jogador de xadrez que tanto falam por aí? Eu disse que não, mas ele nao acreditou, fazer o que? rs. Aproximado o dia da final, ele me procurou e disse que precisaria sai no dia, portanto não poderia jogar. Dizendo que não via problema algum, pedi que remarcassem a partida. Na segunda data, Daniel falou que tinha compromisso na faculdade e melhor que considerasse o WO e eu seria o vencedor. Pedi que remarcasse uma terceira data e aproveitando o ensejo, Elivaldino disse pra Daniel que eu não gostava de coisa fácil e iria ganhar dele na raça. Com muita luta, a partida foi marcada e jogada. Vencendo o medo e usando de sua experiência, em poucos minutos de partida Daniel viu minhas deficiências e acabou ganhando o jogo e consequentemente o campeonato e eu, o tão comentado “Rei do xadrez”, fiquei com a única medalha de segundo lugar em xadrez até hoje, já que nas demais competições, nunca cheguei a tal façanha.

Mas o efeito da propaganda foi tamanho, que ainda houve gente que acreditou que eu não ganhei o campeonato, em respeito aos que tinham algum tempo de casa, e eu era um simples estagiário.. Oh cabra safado o tal do Elivaldino, oh cabra ruim de xadrez sou eu.. rs.

Francisco Trajano


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