Depois de uma prova escrita e um teste
psicotécnico na Escola Técnica Federal de Cajazeiras, no inicio do segundo
semestre de 1999, fiquei entre os convocados para dar continuidade ao processo
seletivo em uma empresa de Campina Grande. Viajamos aproximadamente vinte
alunos para fazer uma entrevista com o gerente da área de manutenção que
escolheria cinco dos participantes para o estágio supervisionado, obrigatório para a conclusão do curso de Eletromecânica.
Chegando a Campina Grande nas
primeiras horas da manhã, visitamos o SENAI do Bairro da Prata, onde tomamos
café e depois de percorrer as instalações daquela instituição de ensino,
seguimos para a empresa na Alça Sudoeste para a entrevista. Fomos bem recebidos
pelo pessoal do recrutamento e ficamos encantados com tanta tecnologia na linha
de produção ao passarmos dentro da área fabril. Quando vi o tamanho da fábrica
e tanta novidade nunca imaginada (como por exemplo, os robôs que identificavam
através de sensores uma avaria na produção e corrigiam sem a interferência
humana) pensei comigo mesmo que ali seria o lugar perfeito para começar minha
vida profissional. Mas faltava a bendita entrevista e só ficariam cinco de nós.
Almoçamos na empresa e ficamos
aguardando o gerente que marcou para as 14:00 horas o início da seleção (e só
chegou de 14:50). Após muito coxilo no miniauditório com ar-condicionado ligado
e algumas apresentações da empresa feitas pela psicóloga, anunciaram a chegada
do gerente que ficou em uma sala ao lado esperando que fossemos um a um para a
entrevista individual. Quando pediram que fossem o primeiro eu não quis me
arriscar e deixei que um herói se escalasse. No retorno do primeiro candidato,
todos foram em cima dele, inclusive eu, para perguntar como era a tal
entrevista e para nossa surpresa, ele apenas falou – Somos concorrentes, quem
quiser saber que vá lá.
Depois que uns quatro já tinha ido e
ninguém dizia nada, me candidatei como o quinto. Atravessando o corredor que
dava acesso à sala da entrevista, passou um milhão de coisas na minha cabeça,
afinal eu tava indo em busca do meu primeiro emprego. Lembrei do que os professores falavam na escola: Olhar
no olho, apertar a mão com firmeza, manter a postura ao sentar, ser objetivo e
todos os outros inúmeros cuidados e demonstrações de qualidade que dificilmente
um patrão teria.
Entrei na sala para definir o início
de minha vida profissional e encontrei um cara aparentemente calmo, falando
manso mais muito atencioso no olhar. Ele fazia vez por outra anotações em um bloquinho de papel, o que me
deixava mais nervoso e curioso. E tava lá transcorrendo tudo tranquilo até que
começaram umas perguntas meio sem sentido. E só pioravam: Se eu mandar você
trocar uma lâmpada, você vai? Sem pestanejar respondi: Vou sim. Essa foi fácil,
mas lá vem outro – Se eu mandar você trocar lâmpadas todos os dias você vai?
Pensei comigo mesmo... Trocar lâmpadas todos os dias? ... Bem, não podia
desagradar o homem, então respondi novamente com uma afirmativa. E a conversa
continuou até que quando eu já estava, sem demonstrar, mas ficando impaciente,
veio uma pergunta pra deixar qualquer naquela situação de inexperiência, no
mínimo cuidadoso ao responder: Se eu mandar você trazer o lixo lá de dentro pra
cá você vai fazer? Então pensei, esse cara tá de sacanagem comigo. Resolvi deixar
de ser lagartixa e só balançar a cabeça. Olhei no olho dele e disse: NÃO. Ele
vai e pergunta: Porque não?
– Se o senhor quer alguém para a
limpeza, por que não faz uma seleção para serviços gerais? Cada um tem
importância no exercício de sua atividade para formar o todo, mas terminei um curso técnico
e pensei que a seleção fosse para isso.
Ele para terminar de me matar, diz assim:
- Me parece que você não está muito a vontade na entrevista. Ora, para quem
tava nervoso isso foi mesmo que dar um tapa na cara. Foi quando pensei: Eu já
to lascado mesmo, vou falar tudo que tá preso na garganta agora, respirei fundo
e mandei:
– Dr. se o senhor passasse a noite
acordado, sendo que em mais da metade dessa noite fosse viajando de Cajazeiras
pra cá, conversando com o motorista para ele não dormir, enfrentasse uma
entrevista com atraso de mais de uma hora para definir um possível estágio numa
grande empresa na qual você sonhasse trabalhar, vindo de um lugar sem muitas
opções e visse essa oportunidade escorregando de suas mãos diante de perguntas
que não condizem muito com o que esperava para uma entrevista técnica, o senhor
estaria tranquilo e a vontade?
Ele olhou como se enxergasse algo no
além por entre o vidro da janela e simplesmente disse: Pode sair e chamar o
próximo. Aí eu tive certeza que tinha me lascado de vez.
Para minha surpresa, trinta dias
depois chegou um fax na Escola Técnica em Cajazeiras convocando os cinco escolhidos
para se apresentarem em três dias na empresa em Campina Grande e começar o
estágio. Meu nome tava entre os cinco. Eu ia dar mais um passo, agora da escola
para o mercado de trabalho.
Francisco Trajano

Trajano, meu amigo!
ResponderExcluirHá quanto tempo!
Acabei descobrindo o seu blog e, logo de início, ao ler o texto acima, fiquei muito feliz em saber como foi o seu início nessa "empresa da Alça Sudoeste". Muito engraçado a situação que você passou! (fiquei curioso em saber quem era esse gerente que lhe entrevistou - rs).
Lendo o seu texto, fui recordando também a entrevista que fiz, nessa mesma empresa, também para uma vaga de estágio supervisionado (e, graças a Deus, fui um dos escolhidos, como você sabe!).
Agora estou morando em Brasília, um pouco fora da Engenharia, mas com saudades dela (eu que abandonei-a um pouco, mas ela não consegue sair de mim - rss).
Abração meu amigo.
Joelson
Obrigado pela visita, seja bem vindo e volte sempre..
ResponderExcluirTrajano, que relato interessante! Você foi sem dúvida um herói....Quantas pessoas passam por uma entrevista de estágio e paralisam, e sua vontade de estar ali naquela empresa foi totalmente perceptível no texto acima. Parabéns! Esse aqui se permitir irei compartilhar em sala de aula.
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